Quem escreve a história da nossa vida?
A nossa saúde mental começa quando deixamos de acreditar que os nossos pensamentos são factos
“Imagina que conduzes um autocarro. Na primeira paragem entra uma mãe com uma criança. A mãe, de olhos castanhos, veste uma camisa branca. A criança, de olhos verdes, veste uma camisola amarela. Na paragem seguinte entra um senhor de idade, de olhos escuros. Traz uma bengala castanha. Na terceira paragem entra um casal. Ela, com os olhos castanhos e amendoados, usa um vestido verde. Ele, de olhos castanho-escuros, abraça um ramo de flores que acabou de oferecer à mulher. De que cor são os olhos do condutor do autocarro?”
Ninguém soube responder.
Era a minha primeira aula de Programação Neurolinguística (PNL). Na sala estavam cerca de vinte alunos. Todos tínhamos ouvido exatamente a mesma história. Todos tínhamos recebido a informação essencial logo na primeira frase. Ainda assim, quase todos a ignorámos. O condutor era cada um de nós.
Foi uma das primeiras lições que tive sobre a forma como a mente constrói a realidade.
Um dos pressupostos mais conhecidos da PNL afirma que “o mapa não é o território”. O território é a realidade. O mapa é a forma como cada um de nós a representa. Nunca caminhamos diretamente sobre o território. Caminhamos sobre o mapa que construímos dele.
A explicação começa no próprio cérebro. A cada instante, recebemos muito mais informação do que aquela que conseguimos processar conscientemente. Para tornar o mundo compreensível, o cérebro constrói um mapa interno da realidade. A PNL descreve esse processo através de três mecanismos fundamentais: omitimos, distorcemos e generalizamos.
Omitimos aquilo que o cérebro considera irrelevante. Distorcemos quando atribuímos significados aos acontecimentos que nem sempre correspondem aos factos. Generalizamos quando transformamos uma experiência isolada numa verdade absoluta.
“Falhei.” Passa a ser: “Sou um falhado.”
“Fui rejeitado.” Transforma-se em: “Ninguém gosta de mim.”
Não vivemos apenas os acontecimentos. Vivemos, sobretudo, o significado que lhes atribuímos.
Há dias, enquanto lia Alta Performance, de Augusto Cury, recentemente publicado pela Pergaminho, detive-me numa ideia da contracapa: “torna-se urgente sermos os cuidadores principais da nossa saúde mental”. Dei por mim a regressar àquela primeira aula de PNL. Afinal, cuidar da saúde mental começa, muitas vezes, por reconhecer que nem sempre vemos a realidade como ela é, mas como a nossa mente a interpreta. Reagimos ao mundo tal como ele é ou ao significado que lhe atribuímos?
Hoje, a neurociência ajuda-nos a compreender esta questão com maior profundidade. Antonio Damásio explica que recordar não é recuperar uma memória intacta. É reconstruí-la. Cada evocação é influenciada pelo estado em que nos encontramos, pelas emoções que sentimos e pelo contexto em que vivemos.
Lisa Feldman Barrett acrescenta que as emoções não são programas automáticos escondidos no cérebro. São construções. Resultam da forma como o cérebro interpreta os sinais do corpo, as experiências anteriores e aquilo que prevê que poderá acontecer a seguir.
Stephen Porges oferece-nos outra peça essencial deste puzzle. Antes mesmo de existir um pensamento consciente, o sistema nervoso faz uma pergunta silenciosa: “Estou seguro?” A resposta chega antes da lógica. Antes das palavras. Antes da consciência.
É por isso que duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e sair dela com histórias completamente diferentes. Os factos são os mesmos. O mapa é diferente.
Gabor Maté lembra-nos que muitas das estratégias que hoje nos fazem sofrer começaram por nos proteger. A criança que aprendeu a esconder as emoções para preservar o vínculo pode tornar-se o adulto que já não consegue pedir ajuda. O perfeccionista pode ter sido apenas uma criança que descobriu demasiado cedo que errar tinha consequências dolorosas.
O cérebro não escreve histórias para nos fazer felizes. Escreve histórias para nos manter vivos.
A maior ilusão é confundirmos o mapa com o território. A narrativa com a realidade. A interpretação com o facto.
A verdadeira liberdade não passa por controlar todos os pensamentos. Passa por reconhecer que um pensamento não é um facto. É apenas uma interpretação. Uma entre muitas possíveis. Infinitas, como costumamos dizer na neurolinguística.
Naquela manhã, a resposta esteve diante de todos desde a primeira frase. Só não fazia parte da história que a nossa mente decidiu construir.
É, no fundo, o que fazemos todos os dias.
A verdadeira liberdade começa quando voltamos a olhar com curiosidade. Quase sempre, a realidade não mudou. Mudou apenas a história que contamos sobre ela.