A pressão turística na Madeira tem sido exercida apenas pelos mercados externos?
O crescimento dos hóspedes portugueses, tal como dos estrangeiros, é significativo nos últimos anos, havendo uma enorme distância entre o pré e o pós pandemia
A ideia de que a pressão turística na Madeira é sobretudo um fenómeno ‘importado’, resultado do crescimento dos mercados externos, é frequentemente repetida no debate público. Mas será que os números confirmam essa leitura? Os dados da Direção Regional de Estatística da Madeira (DREM) e da ANA – Aeroportos de Portugal, relativos ao período entre 1 de Janeiro e 31 de Maio de cada ano, entre 2017 e 2026, permitem colocar a questão à prova.
Antes de chegar aos hóspedes, olhe-se para o que entra pela ‘porta’ principal: os aeroportos. Entre 2019 e 2026, o número de voos com destino à Região Autónoma da Madeira aumentou 45,5%, passando de 10.525 para 15.318. Já o número de passageiros cresceu bem mais depressa: 69,7%, de 1.325.289 para 2.249.428. Considerando apenas o Aeroporto da Madeira, os valores repetem-se: os voos subiram 48,5% e os passageiros 69,6%.
Este descompasso tem uma explicação, fruto da popularidade da Madeira. Significa que, além de mais aviões a aterrar na Região, cada avião transporta agora, em média, mais gente, seja por maior taxa de ocupação, seja pela utilização de aeronaves de maior capacidade. A média diária de passageiros na Região subiu de 8.776,7, em 2019, para 14.896,8, em 2026.
Mas quantos desses passageiros ficam hospedados, de facto, no alojamento turístico da Madeira? Sabendo que muitos madeirenses e, também, portugueses do continente, usam outros meios de hospedagem, casas de familiares e amigos, mas o mesmo acontece com muitos emigrantes que vindos dos países onde residem não serão os clientes mais ‘naturias’ das unidades de alojamento turístico, importa questionar: afinal de onde vêm?
É aqui que entram os dados de alojamento turístico, que permitem separar os hóspedes por origem, entre residentes em Portugal e residentes no estrangeiro, e comparar o ritmo de crescimento de cada grupo. Os números do total de hóspedes, por si só, já mostram uma evolução considerável: de 541.307, entre Janeiro e Maio de 2019, para 1.006.401 no mesmo período de 2026, um crescimento de 85,9% em termos de média diária.
A questão que interessa ‘fact-checkar’ é outra: esse crescimento reparte-se de forma equilibrada entre mercados, ou há um mercado a puxar mais do que o outro?
Os hóspedes residentes em Portugal passaram de 109.393 para 215.630 entre 2019 e 2026, um crescimento quase a duplicar para 97,2% na média diária, de cerca de 724 para 1.428 hóspedes por dia. Os hóspedes residentes no estrangeiro cresceram de 431.914 para 790.771, um aumento de 83,1% na média diária, de aproximadamente 2.860 para 5.237 hóspedes por dia.
Comparando os dois valores, 97,2% contra 83,1%, o mercado nacional cresceu, em termos relativos, mais depressa do que o mercado externo desde 2019.
Aqui reside, portanto, o ponto que separa a percepção da realidade estatística. Em 2019, os hóspedes residentes em Portugal representavam 20,19% do total de hóspedes na Madeira. Em 2026, essa fatia subiu para 21,40%, um aumento de pouco mais de um ponto percentual em sete anos. Do lado oposto, os residentes no estrangeiro passaram de 79,77% para 78,57% do total.
Ou seja: apesar de os portugueses terem crescido a um ritmo superior, continuam a representar pouco mais de um em cada cinco hóspedes na Madeira. Os hóspedes estrangeiros mantêm-se, isoladamente, o principal motor da procura turística na Região.
Cruzando os dados de passageiros com os de hóspedes, é possível estimar a percentagem de passageiros que efectivamente pernoita em alojamento turístico. Dividindo por dois a média diária de passageiros, para contar apenas quem desembarca, obtém-se cerca de 4.388,5 passageiros por dia em 2019 e 7.448,5 em 2026. Face às médias diárias de hóspedes (3.584,8 em 2019 e 6.664,9 em 2026), a percentagem de passageiros que ficam alojados subiu de 81,69% para 89,48%, um crescimento de 9,5%.
Contudo, importa referir que a divisão por dois não é totalmente fiável, serve apenas de referência. Basta notar que nos primeiros cinco meses deste ano desembarcaram menos passageiros (465.169) do que os que embarcaram (484.370) cujos voos tiveram origem em Portugal, enquanto que do lado dos voos com origem no estrangeiro (cinco principais mercados externos: Reino Unido, Alemanha, Polónia, França e Países Baixos) aconteceu o mesmo, mas uma diferença menos acentuada (467.806 desembarcados contra 472.857 embarcados), numa diferença de mais 19.201 embarcados da Madeira para território nacional (podendo ser madeirenses, portugueses ou estrangeiros, como destino final ou rumo a outros países em voos de ligação) e mais 5.051 embarcados para os cinco mercado externos referidos.
Portanto, a afirmação de que a pressão turística na Madeira é exercida apenas pelos mercados externos não se confirma. Os dados mostram um crescimento mais acentuado do mercado nacional desde 2019, com os hóspedes residentes em Portugal a crescer a um ritmo superior (97,2%) ao dos residentes no estrangeiro (83,1%). No entanto, esse crescimento mais rápido não foi suficiente para alterar significativamente a estrutura do turismo na Região: os hóspedes estrangeiros continuam a representar cerca de quatro em cada cinco hóspedes, uma proporção praticamente inalterada desde 2019.
A resposta correta é, portanto, intermédia: a pressão turística não é exercida apenas pelos mercados externos, mas também não é maioritariamente nacional (mesmo contando apenas os cinco principais mercados externos). É um fenómeno de dupla origem, em que o mercado externo continua a dominar em volume, enquanto o mercado interno ganha peso a um ritmo mais acelerado.
Importa ainda assinalar que os dados analisados cobrem apenas o período entre 1 de Janeiro e 31 de Maio de cada ano, não reflectindo o comportamento da procura durante os meses de Verão, habitualmente de maior intensidade turística na Região.
Mas deixemos uma ideia: entre 2019 e 2025, o número de hóspedes entrados no alojamento turístico passou de 1.382.987 para 2.441.921, basicamente de quase 1,4 milhões para mais de 2,4 milhões, num crescimento de 76,6%, sendo que face à residência dos hóspedes, passou-se de 313.261 para 550.951 (+75,9%) em Portugal e 1.069.726 para 1.890.970 (+76,7%) no estrangeiro. Ou seja, em termos de popularidade, está ela por ela. A Madeira está na moda e ambos os mercados crescem, embora o mercado nacional seja cerca de 3,5 vezes inferior ao estrangeiro.