Bombeiros ficam em terra apesar de estarem prontos para a Venezuela
A força madeirense que estava preparada para seguir para a Venezuela, para integrar as operações de busca e salvamento urbano após os sismos que devastaram o país, vai ser desmobilizada. Os bombeiros estavam seleccionados, vacinados, preparados e em prontidão há vários dias. Mas não seguem. Ficam em terra firme. E a culpa é de quem?
Richard Marques, presidente do Serviço Regional de Protecção Civil da Madeira, confirmou que a indicação recebida da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil é a de que, neste momento, “não vão entrar mais equipas” na vertente de busca e salvamento em ambiente urbano na Venezuela.
“A prontidão foi efectivamente finalizada. Foi fim de prontidão”, afirmou o responsável, recusando, ainda assim, a expressão “missão abortada”. Na prática, a equipa madeirense fica em terra, apesar de ter sido aprontada em menos de 24 horas e de reunir valências específicas para actuar em estruturas colapsadas, escombros, resgate técnico e operações complexas em ambiente urbano.
A força regional era composta por 18 elementos, maioritariamente bombeiros. O núcleo principal vinha da Companhia de Bombeiros Sapadores do Funchal, através do módulo de busca e resgate em estruturas colapsadas.
Richard Marques garantiu que os operacionais estavam plenamente preparados para a missão. “Não tenho dúvidas nenhumas que os bombeiros seleccionados, além de física e psiquicamente preparados, tinham conhecimentos diferenciados para intervir no tipo de missão que estávamos formatados para fazer”, afirmou.
O responsável explicou que vários elementos têm formação avançada em busca e resgate em estruturas colapsadas, incluindo formação realizada na Academia de Bombeiros do Chile, num percurso desenvolvido em articulação com os Açores. A força incluía ainda competências em salvamento em valas e técnicas de elevação de emergência de estruturas pesadas. O que ainda se torna mais estranho, consideramos.
“Estamos a falar de bombeiros não só bem formados, mas bem treinados e com qualificações em dia”, vincou o presidente do SPCM.
A decisão de não projectar a equipa surge depois de o Governo Regional ter disponibilizado, desde cedo, esta capacidade operacional através do Governo da República. Segundo Richard Marques, a prioridade da Madeira foi garantir rapidamente uma força pronta para integrar o esforço nacional.
“A nossa preocupação foi garantir rapidamente a prontidão deste contingente e que isso fosse uma mais-valia para a força nacional”, explicou.
Apesar disso, a decisão final nunca coube à Região. A projecção teria de acontecer no quadro do sistema nacional e dos mecanismos internacionais de protecção civil, dependendo da Autoridade Nacional e da informação operacional proveniente do terreno.
“Não nos cabe a nós decidir a projecção”, reconheceu Richard Marques. Ora, questionado sobre o facto de os bombeiros madeirenses terem sido preparados e acabarem por não seguir, o presidente do Serviço Regional de Protecção Civil admitiu que o resultado esperado era outro. Prefere não usar a palavra lamento, mas decorrente do diálogo percebe-se o 'amargo de boca'.
“Com certeza que a expectativa era, de facto, uma projecção desta força. Esse era o desfecho que esperávamos. Não aconteceu”, afirmou.
Richard Marques recusou comentar se faltou peso político à Madeira e aos Açores para garantir a integração dos respectivos contingentes na missão. “Não me vou pronunciar sobre aspectos políticos, nem é a minha área nem domínio”, respondeu.
Ainda assim, garantiu que o acompanhamento operacional foi permanente e que o Serviço Regional de Protecção Civil manteve contactos diários, várias vezes ao dia, com a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.
Com a janela mais crítica para operações de busca e salvamento urbano a fechar-se, Richard Marques admitiu que a resposta poderá agora passar por outro tipo de apoio, nomeadamente ajuda humanitária, medicamentos, bens essenciais, apoio pré-hospitalar ou equipas de emergência médica.
“Pode haver necessidade de outro tipo de equipas, também na área do pré-hospitalar ou de emergência médica, e nós temos experiência em todo o espectro da acção da protecção civil e da emergência médica”, afirmou.
A força madeirense deixa, assim, o estado de prontidão imediata, mas fica disponível para uma eventual reconfiguração da missão, caso as autoridades nacionais entendam que a Região pode ser chamada a intervir noutra vertente da resposta à crise na Venezuela.
Para já, a conclusão é evidente, tanto os bombeiros madeirenses como açorianos estavam prontos, tinham formação, tinham capacidade e tinham sido preparados para seguir. Mas ficaram em terra. Ponto final.