Quando o hospital se torna o último lar...

Há imagens que nos deviam envergonhar enquanto sociedade. Uma delas é a de um idoso sentado à janela de um quarto de hospital, de alta médica, olhando para a porta na esperança de ver entrar um filho, uma filha ou um neto. Espera um dia, dois dias, uma semana... e ninguém aparece.

Infelizmente, esta não é uma história inventada. É uma realidade que se repete em muitos hospitais portugueses. Homens e mulheres que trabalharam uma vida inteira, que criaram filhos, que fizeram sacrifícios para dar um futuro melhor às suas famílias, acabam os seus dias esquecidos por aqueles por quem tantas vezes sacrificaram os próprios sonhos.

É verdade que nem todas as famílias têm condições para cuidar de um idoso dependente. Há quem enfrente dificuldades económicas, problemas de saúde ou falta de apoio. Essas situações merecem compreensão e respostas por parte do Estado. Mas isso não pode servir para justificar o abandono deliberado. Uma coisa é não conseguir. Outra, muito diferente, é simplesmente desaparecer.

O resultado é dramático. Camas hospitalares ficam ocupadas por pessoas que já não necessitam de cuidados médicos, enquanto outros doentes esperam horas nas urgências ou veem cirurgias adiadas por falta de vagas. Os hospitais acabam por desempenhar um papel que não lhes pertence: o de serem um lar para quem foi esquecido.

Mais do que um problema de saúde, este é um problema de valores. Uma sociedade que perde o respeito pelos seus idosos perde uma parte da sua própria identidade. Hoje são eles. Amanhã poderemos ser nós.

Os pais ensinam os filhos a dar os primeiros passos, seguram-lhes a mão quando têm medo, trabalham para lhes proporcionar uma vida melhor e estão presentes quando tudo parece difícil. No fim da vida, o mínimo que merecem é companhia, carinho e dignidade. Não o silêncio de um corredor de hospital nem a esperança, cada vez mais fraca, de ouvir alguém dizer: “Vim buscar-te.”

O progresso de um país não se mede apenas pelas suas estradas, pelos seus edifícios ou pelos números da economia. Mede-se, acima de tudo, pela forma como trata aqueles que já deram tudo o que tinham para dar.

Porque um idoso abandonado num hospital não é apenas um drama familiar. É uma derrota moral de toda a sociedade.

António Rosa Santos