Portugal deve ser "uma ponte" entre Norte e Sul e defender direitos humanos
Antigos diplomatas portugueses na ONU defendem que se Portugal for eleito como membro não-permanente do Conselho de Segurança, deve afirmar-se como "uma ponte" entre Norte e Sul e insistir no multilateralismo, direitos humanos e clima.
"Nos últimos 50 anos, Portugal tem-se evidenciado no quadro internacional pelo seu empenhamento na defesa dos direitos humanos", salientou, disse à Lusa Francisco Seixas da Costa, representante permanente junto da ONU entre 2001 e 2002.
Num eventual mandato no Conselho de Segurança, Portugal deverá "sublinhar alguns aspetos daquilo que é a tradição da sua diplomacia e da sua ação externa", desde logo "a defesa do direito internacional e da Carta das Nações Unidas".
"Este é um ponto importantíssimo. Portugal tem sido um defensor forte", referiu, em vésperas da votação, na Assembleia Geral da ONU, para eleger cinco membros não-permanentes do Conselho de Segurança, a que Portugal concorre, no grupo da Europa Ocidental e Outros Estados (a que correspondem dois assentos), juntamente com Alemanha e Áustria.
Seixas da Costa identifica também os oceanos e segurança marítima como "um eixo essencial", bem como "os grandes dossiês ambientais".
Além disso, recorda o "papel altamente prestigiado" da participação portuguesa nas operações de paz da organização, com um contributo de mais de 20 mil efetivos em 65 anos.
Para António Monteiro, seu antecessor no cargo (entre 1997 e 2001), Portugal tem "uma atuação de peso" nas Nações Unidas, "validada" por uma "política interna exemplar em relação ao que deve ser a atuação de um país que defende os seus interesses nacionais, mas ao mesmo tempo joga na frente internacional em conjunto para encontrar as soluções mais justas para um mundo mais equilibrado".
Caso seja eleito para o biénio 2027-2028, Portugal deve "continuar a dar particular atenção" a países como a Guiné-Bissau, palco de um golpe militar no ano passado, apontou António Monteiro, que foi embaixador na ONU durante o segundo mandato no Conselho de Segurança (1997-1998).
O antigo diplomata destacou também que Portugal é sempre "muito ativo" na defesa dos direitos humanos e "deve continuar a sê-lo e muitas vezes em situações que são muito difíceis".
Deve também bater-se por "uma Europa mais visível, mais forte, mais influente nas Nações Unidas".
Para José Moraes Cabral, embaixador na ONU entre 2008-2013, Portugal deve continuar a defender bandeiras que "são o nosso ADN", enumerando a preocupação com os oceanos, as alterações climáticas, a causa da Palestina -- que Portugal reconheceu como Estado no final do ano passado, juntamente com outros países ocidentais.
"O direito internacional e os direitos humanos, em que avançámos com iniciativas muito concretas, como a defesa das mulheres e crianças em cenários de guerra e conflito.
O antigo representante especial das Nações Unidas para Operações de Paz Victor Ângelo destacou à Lusa que Portugal "não representa uma ameaça" dentro do Conselho, antes pelo contrário: "pode representar uma grande parte dos países membros das Nações Unidas, que têm valores e dimensão semelhantes".
Victor Ângelo, que trabalhou mais de três décadas na ONU e reportava diretamente ao CSONU, considerou que o lema da candidatura portuguesa -- "Prevenção, Parceria, Proteção" -- foi bem escolhido.
Portugal deve apresentar-se como "uma ponte entre o Norte e o Sul", defendeu.
"Os países do Sul têm a impressão de que estão a ser cada vez mais ignorados pelos países mais desenvolvidos. Portugal pode aparecer como uma ponte entre os países desenvolvidos, nomeadamente a União Europeia, e os países do Sul, com mais dificuldades económicas, na saúde, na educação", sustentou, com uma "grande insistência nas questões do desenvolvimento e da cooperação internacional", mas também no acesso às novas tecnologias, como a inteligência artificial.
A votação dos cinco dos dez membros não-permanentes do Conselho de Segurança decorre na quarta-feira, na Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, e faz-se por voto secreto dos 193 Estados-Membros.
Portugal, Alemanha e Áustria concorrem aos dois lugares atribuídos ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados.