A arte de poupar e gerir dinheiro
E, nós, que começámos nesta casa sobrevivemos aos apertos, a todas as crises dos últimos 50 anos, mas sei que me falta a arte da dona Celina e do mestre Gabriel para poupar e gerir dinheiro
A minha mãe tinha um fundo de caixa debaixo do forro de papel da primeira gaveta da cómoda e uma conta no banco com o dinheiro que lhe coube da venda da casa dos meus bisavós. A casa, com quintal e as melhores tangerinas da minha infância, foi comprada por um senhor do Curral, ex-emigrante em França e negociada pelas herdeiras do imóvel — a minha mãe e as minhas tias. Quando se dividiu o valor, os meus pais respiraram de alívio pela primeira vez.
O meu pai tinha sobrevivido à fome e trabalhava desde os 10 anos; a minha mãe bordava e trouxera de dote o terreno onde, depois, construíram a casa, sempre a custo, com uma letra no banco que os envergonhava. Foi ali que começámos, numa casa com janelas azuis e uma latada de vinha; depois chegámos nós, o meu irmão e eu e a casa cresceu connosco. Uma cozinha, uma casa de banho com duche e banheira e um quarto para engomar, mais tarde a sala, com sofás e alcatifa.
A minha mãe mandou pintar o nosso quarto de azul e fez umas colchas a condizer para as camas. E, quando o quarto que dividia com o meu irmão, passou a ser só meu, a dona Celina não viu necessidade de mudar para cor-de-rosa, ficou azul. Nada mudava depressa e tudo resistia às modas. Os móveis sobreviveram à minha adolescência, aos anos da faculdade e ainda existem alguns, comprados pelos meus pais no ano em que se casaram, faz este Novembro 60 anos.
Alguns perderam a cor e estão todos fora de moda, mas mantê-los é continuar o espírito da casa, da dona Celina e do mestre Gabriel e daquele modo de vida onde o valor mais apreciado era a capacidade que cada pessoa tinha para poupar. O dinheiro do fundo da caixa da gaveta da cómoda - que agora é amarela e está na sala - não se gastava sem pensar. E o que estava no banco não entrava nas contas, era uma espécie de seguro de vida que a minha mãe ia ver como estava a cada seis meses e só levantava os juros num aperto.
Nós tivemos muitos, por razões várias, ainda que a principal fosse aquela que os senhores da televisão designavam como o custo de vida e o preço do cabaz. Os preços subiam de mês para mês e, embora o meu pai trabalhasse sábados, domingos e feriados, o dinheiro desaparecia. Se não fosse a arte da minha mãe de, ao menos no Natal e na festa da paróquia, encontrar maneira de comprar roupa e sapatos, as memórias da minha adolescência seriam outras e para pior.
Lembro-me das saias com restos de tecido da alfaiataria do meu tio Humberto e de ter deixado de me ajoelhar na missa para que não se visse o estado da sola dos meus sapatos. E de como isso doía aos 13 anos quando, na escola dos Ilhéus, as minhas colegas contavam histórias das férias em Canárias e de como tudo parecia estar no lugar: a roupa, o corte de cabelo, os cadernos, a forma como falavam e o modo de andar. Eu era gordinha, desajeitada, tinha roupas esquisitas e sapatos com meias solas, mas não podia pedir mais.
O meu pai e a minha mãe orgulhavam-se da casa, da conta no banco, de estarmos na escola e, todos os dias, iam à luta. O mestre Gabriel na parte da frente da furgoneta que o vinha buscar; a minha mãe com o candeeiro articulado em cima do bordado. E foi o bordado - e todo o dinheiro que a minha mãe fez a vender ovos e hastes de orquídeas - que pagou os bilhetes de cinema na sessão da tarde, as entradas no Lido e os 20 escudos para o lanche, que, também eu, aprendi a poupar para comprar livros.
E, nós, que começámos nesta casa sobrevivemos aos apertos, a todas as crises dos últimos 50 anos, mas sei que me falta a arte da dona Celina e do mestre Gabriel para poupar e gerir dinheiro. A parte que lhes coube da venda da casa dos meus bisavôs durou até 2020, quando levantámos os últimos três mil euros, no dia em que o meu pai morreu.