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O Amor de Mãe Também Precisa de Justiça

Se tanto devemos às mães, então devemos-lhes mais do que palavras bonitas. Devemos-lhes tempo. Devemos-lhes justiça

No Dia da Mãe, não podemos limitar-nos à homenagem bonita, à fotografia partilhada nas redes sociais ou à frase comovente. Devemos olhar para as mães como mulheres inteiras: mulheres que amam, que cuidam, que trabalham, que se cansam, que sonham, que adiam projetos, que tantas vezes se anulam para que outros possam crescer. Mulheres que não precisam apenas de reconhecimento simbólico. Precisam de respeito, de direitos, de tempo, de justiça e de políticas públicas que estejam à altura daquilo que dão todos os dias.

Ser mãe hoje é viver muitas vezes na linha invisível entre o amor e a exaustão. É acordar antes de todos, preparar lanches ou almoços, organizar horários, ajudar nos trabalhos da escola dos filhos, trabalhar oito horas ou mais, regressar a casa, cozinhar, arrumar e continuar a trabalhar. É saber quando são as consultas, onde estão os casacos, os medicamentos, os medos e as alegrias dos filhos. É ser gestora, cuidadora, profissional, educadora, enfermeira, motorista, psicóloga e, ainda assim, sentir muitas vezes que nunca é suficiente.

Durante demasiado tempo, a sociedade romantizou este esforço. Chamou-lhe “instinto maternal” ou “vocação”. Mas cuidar não é uma qualidade mágica que nasce nas mulheres. Cuidar é trabalho. Trabalho duro. Trabalho que sustenta famílias, empresas e comunidades.

A Organização Internacional do Trabalho estimou, em 2024, que 708 milhões de mulheres em todo o mundo estavam fora da força de trabalho devido a responsabilidades de cuidado não remunerado. Este dado deve fazer-nos pensar. Porque por trás de cada número há uma mulher que ficou sem rendimento, sem autonomia, sem carreira ou sem descanso para garantir que alguém era cuidado. Em Portugal, fizemos progressos importantes. As mulheres estudam mais, trabalham mais, participam mais e conquistaram direitos que durante gerações lhes foram negados. Mas a igualdade legal ainda não é igualdade real. Os dados continuam a mostrar diferenças persistentes entre homens e mulheres no emprego, nos salários e nas oportunidades. E quando falamos de salários, a realidade é violenta. A Pordata assinalou que as mulheres em Portugal ganham, em média, menos 16% do que os homens, diferença que se traduz em menos 238 euros no ganho médio mensal. Estes números têm rosto. São o rosto da mãe que trabalha o mesmo, ou mais, e leva menos para casa. Da mulher que interrompeu a carreira para cuidar de um filho pequeno ou de um familiar dependente. Da trabalhadora que hesita em dizer que está grávida por medo da reação da entidade patronal. Da profissional que, depois de ser mãe, deixa de ser vista como disponível, ambiciosa ou “apta” para assumir responsabilidades.

Também precisamos de acabar com o mito da mãe perfeita. Esse mito pesa sobre tantas mulheres como uma culpa silenciosa. A mãe perfeita não se cansa, não se irrita, não falha, não adoece, não pede ajuda, não tem dúvidas, não tem vontade de estar sozinha. Mas essa mãe não existe. Existem mães reais. Mulheres reais. Com amor incondicional, sim, mas também com limites. Com orgulho nos filhos, mas também com sonhos próprios. Com vontade de cuidar, mas também com direito a serem cuidadas.

Uma sociedade justa não exige às mães que sejam heroínas todos os dias. Uma sociedade justa cria condições para que não tenham de o ser. Por isso, quando falamos do Dia da Mãe, devemos falar de creches acessíveis, de horários compatíveis com a vida familiar, de transportes, de habitação, de saúde mental materna, de proteção laboral, de igualdade salarial, de partilha efetiva das responsabilidades parentais.

Ser mãe não pode significar abdicar de si própria. Não pode significar desistir da carreira, da participação cívica ou política, da vida social, do descanso, da liberdade. A maternidade deve ser uma escolha vivida com dignidade, não uma sentença de sobrecarga. E a resposta não pode estar apenas nas mulheres. Tem de estar também nos homens, nas empresas, nas instituições e no Estado.

No fundo, o que está em causa é isto: se tanto devemos às mães, então devemos-lhes mais do que palavras bonitas. Devemos-lhes tempo. Devemos-lhes justiça. Devemos-lhes políticas públicas. Devemos-lhes uma cultura laboral que não castigue a parentalidade. Devemos-lhes uma sociedade onde cuidar seja partilhado e valorizado.

Feliz dia da Mãe, especialmente à minha, a quem devo tanto do que sou, e a quem agradeço a dedicação de uma vida.