Conselho da Paz lamenta violações "todos os dias" a trégua em Gaza
O alto-representante do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza lamentou hoje violações "todos os dias" ao cessar-fogo em vigor desde outubro no território palestiniano, incluindo mortes de civis, reconhecendo que o acordo "não é perfeito".
Em conferência de imprensa em Jerusalém, Nikolay Mladenov considerou que a trégua entre Israel e o grupo islamita palestiniano Hamas "está a ser respeitado", apesar de "violações muito graves" numa base diária, que "significam, na prática, que os civis ainda estão a ser mortos".
O diplomata búlgaro foi escolhido para a liderança do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, estrutura criada pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, no âmbito das negociações de paz no enclave palestiniano, que levaram a 10 de outubro de 2025 à interrupção da guerra iniciada dois anos antes.
O cessar-fogo entre as partes, obtido com mediação dos Estados Unidos, Egito, Qatar e Turquia, permitiu a troca de reféns e prisioneiros, o recuo das tropas israelitas e o acesso de ajuda humanitária ao território devastado, mas não evoluiu ainda para a sua segunda fase, visando uma paz permanente.
Mladenov reuniu-se hoje com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e, depois do encontro, criticou que "a porta para o futuro de Gaza continua fechada" e que o quotidiano no enclave não reflete o plano de paz de 20 pontos de Trump, validado no final do ano passado pelo Conselho de Segurança da ONU.
O representante do Conselho da Paz descreveu famílias palestinianas que tentam alimentar os seus filhos, enquanto vivem deslocadas em tendas e abrigos improvisados.
"Não é o que foi prometido aos palestinianos, nem o que eles merecem, nem proporciona a Israel a segurança necessária para avançar, como o povo israelita também deseja", alertou.
A segunda fase do cessar-fogo prevê o desarmamento do Hamas e a continuação da retirada gradual do exército israelita, que ainda controla mais de 50% da Faixa de Gaza, mas o diálogo encontra-se paralisado há semanas, desde que o foco internacional se desviou para os conflitos no Irão e no Líbano, igualmente com a participação de Israel.
"Não estamos a pedir que o Hamas desapareça como movimento político", comentou Mladenov sobre o desarmamento do grupo palestiniano e um dos temas mais sensíveis das negociações de paz na Faixa de Gaza.
Nesse sentido, o diplomata considerou que "é inegociável" que fações armadas ou milícias com próprias estruturas de comando militar, arsenais de armamento e redes de túneis "possam coexistir" com uma autoridade palestiniana tecnocrática de transição, que deverá gerir o território ao abrigo do entendimento de paz.
Quanto à reconstrução do enclave destruído pelos bombardeamentos israelitas e combates terrestres ao longo de dois anos, levará "uma geração" a concluir.
"As dezenas de milhões de toneladas de detritos que precisam de ser removidos, o número de pessoas --- mais de um milhão --- que precisam de algum tipo de abrigo permanente e de acesso básico a água e saneamento, isto é (...) o trabalho de uma geração para Gaza", sustentou.
Ao longo dos últimos sete meses, Israel e o Hamas trocaram acusações frequentes de violações do cessar-fogo e as organizações de ajuda humanitária acusam as autoridades israelitas de não permitirem a entrada da quantidade de assistência prometida.
O Hamas ainda não desarmou as suas milícias e Israel tem intensificado os seus ataques na Faixa de Gaza nos últimos dias, a par do cessar-fogo em vigor desde o mês passado no conflito no Irão.
Mladenov é um diplomata e consultor de longa data da ONU, que foi também ministro dos Negócios Estrangeiros da Bulgária.
No ano passado, foi nomeado alto-representante para a Faixa de Gaza do Conselho Internacional de Paz, criado e liderado por Donald Trump para supervisionar os planos pós-guerra para o território.
A guerra foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns.
Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave, que provocou mais de 72 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelos islamitas palestinianos, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.