A crise da habitação também começa no ensino superior

Quando se fala da crise da habitação em Portugal, apontam-se quase sempre as mesmas causas: o turismo, o aumento das rendas, o preço das casas. Mas há uma realidade silenciosa que todos os anos agrava este problema e que raramente entra no debate público. Há milhares de jovens que são obrigados a sair de casa para estudar.

São mais de 110 mil estudantes nesta situação. Todos os anos, entram no mercado à procura de um quarto, quase sempre nas mesmas cidades, Lisboa e Porto, onde já é difícil para quem lá vive. Para muitas famílias, isto não é uma escolha. É uma imposição do sistema.

E depois vêm as contas. Estudar fora pode custar entre 800 e 1000 euros por mês. Para muitas famílias portuguesas, isto representa um esforço enorme, por vezes incomportável. Em alguns casos, é o que separa a possibilidade de estudar da necessidade de desistir.

Este esforço não é por acaso. Estudos recentes mostram que as famílias portuguesas suportam uma fatia muito maior dos custos do ensino superior do que a média europeia. E a razão percebe-se facilmente no dia-a-dia: não é apenas a propina, é o custo de viver longe de casa.

Mas há ainda um dado que raramente se diz de forma clara. O próprio Estado está a financiar este modelo.

No caso das regiões autónomas, como a Madeira, milhares de estudantes têm de viajar todos os anos para o continente para estudar. Grande parte dessas viagens é paga através de dinheiros públicos. No total, estamos a falar de mais de 100 milhões de euros por ano gastos em mobilidade aérea.

E aqui surge uma pergunta simples, que qualquer pessoa entende: faz sentido estarmos a gastar tanto dinheiro para ajudar os jovens a sair das suas regiões, quando esse mesmo dinheiro podia ser utilizado para lhes dar condições para ficar.

Imagine o impacto se parte desse investimento fosse direcionado para baixar propinas, reforçar bolsas, criar mais cursos nas regiões ou melhorar as universidades locais. Em vez de pagar deslocações todos os anos, estaríamos a investir em soluções que ficam no território e que beneficiam o futuro.

Porque há algo essencial que muitas vezes esquecemos. A educação fixa pessoas. Um jovem que estuda perto de casa tem mais probabilidades de ali trabalhar, viver e construir vida. Um jovem que sai, muitas vezes não regressa. Para a Madeira e para o interior do país, isto não é um detalhe. É uma questão de sobrevivência demográfica.

Ao mesmo tempo, há um problema de base que precisa de ser discutido com mais coragem. O acesso ao ensino superior em Portugal depende quase exclusivamente da nota. À primeira vista, parece justo. Mas na prática, nem sempre produz decisões equilibradas.

Todos os anos acontecem situações difíceis de justificar. Um jovem da Madeira, com uma nota ligeiramente inferior, não entra perto de casa. Um jovem do continente, com uma nota um pouco mais alta, ocupa essa vaga e desloca-se, mesmo tendo alternativas na sua região. O resultado é simples. Um é obrigado a sair. O outro sai sem necessidade. E o sistema continua a alimentar deslocações que podiam ser evitadas.

Ninguém defende que a nota deixe de contar. Mas faz sentido que seja o Único critério? Deve ignorar completamente onde vivem as pessoas e o impacto real dessas decisões?

Porque estas decisões não são neutras. Têm consequências diretas. Mais estudantes deslocados significa mais procura de casas, mais pressão sobre os preços e mais dificuldade para as famílias que já vivem nas cidades. Ao mesmo tempo, significa menos jovens nas regiões de origem, menos vitalidade e menos futuro.

Se olharmos para os números com simplicidade, percebemos a dimensão do problema. Se mais de 100 mil estudantes procuram alojamento todos os anos, estamos a falar de dezenas de milhares de casas ou quartos ocupados. Mesmo com estimativas prudentes, isso traduz-se facilmente em 40 a 50 mil unidades habitacionais que poderiam estar disponíveis se esta pressão não existisse.

Num país onde tanto se fala da falta de casas, este dado não pode ser ignorado.

No fundo, há aqui uma incoerência evidente. O Estado paga para facilitar a saída dos jovens, mas não resolve as razões que os obrigam a sair. As cidades ficam mais pressionadas, enquanto outras regiões ficam mais vazias.

Talvez esteja na altura de inverter esta lógica. De investir mais em criar condições para ficar. De distribuir melhor as oportunidades. De olhar para o território como um todo.

Porque, no fim, a pergunta é simples e direta.

Faz sentido manter um sistema que obriga milhares de jovens a sair de casa, aumenta os custos para as famílias e agrava a crise da habitação, quando existem alternativas mais equilibradas e sustentáveis.

J.R.