Crescer
Os rapazes eram estúpidos, as raparigas tontas e ainda jogávamos às escondidas
No dia em que a minha mãe me mandou para o 1º ano do ciclo levei um vestido azul, dois ganchos a prender o cabelo e um relógio para ver as horas e não perder o autocarro. Também me deu dinheiro para comer um gelado ou comprar um bolo, mas avisou que não ia ser sempre assim. Antes de me atirar para longe da vista, sentou-se na beira da minha cama e tentou explicar que ia ser tudo diferente dali para a frente e, se quisesse estudar, como ela queria e como mereciam as minhas notas da quarta classe, devia ter cuidado com os rapazes, sobretudo os que paravam de mota na porta da escola. Uns dias depois, ainda eu não sabia bem onde ficavam as salas marcadas no horário, trouxe-me um livro e disse-me para ler, tinha tudo o que devia saber sobre namoros e bebés.
O livro, devidamente sancionado pelas freiras da Irmãs Paulistas e pela igreja, foi para dentro da mesa de cabeceira antes de ter coragem para o ler. O meu corpo desafiava-me e estava a mudar, mas a minha cabeça era a da menina de ganchos a prender o cabelo e vestido azul. E, embora fosse esquisito ser mais alta que a minha mãe e as minhas tias e ainda mais estranho quando os professores me confundiam com um repetente, o enxame de motas e rapazes à porta da escola dava-me medo e nem me atrevia a olhar, mais ou menos como tinha feito com o livro com a verdade sobre o amor e o sexo. Duas palavras que, juntas ou em separado, faziam corar e eram motivo para rir, pelo menos na minha turma, o 1º-6 da Horácio Bento.
Os rapazes eram estúpidos; as raparigas tontas e, além disso, ainda jogávamos à pilhagem e às escondidas. Ou então íamos todos à morgue do hospital, só para dizer depois que tínhamos visto um morto. Havia namoros, mas dos alunos mais velhos, dos que só estavam ali para ter a escolaridade obrigatória e para quem a vida estava quase a começar. Os outros riam-se de quem dava beijos na boca e andava de mãos dadas. E eu fazia parte dessa maioria que corria para a paragem do autocarro à hora de almoço, apesar de ninguém acreditar nos meus 10 anos e depois nos 11, 12, 13, 14 anos, o tempo em que me senti refém de um corpo que não tinha pedido e que não parecia o meu.
E foram os anos mais estranhos que tive. A parte de fora não combinava com a parte de dentro como se não bastasse ser do Laranjal, no fim da carreira 12, e ter uma mãe que, para manter a ordem, ameaçava tirar-me da escola todas as vezes que chegava meia hora mais tarde a casa. Não sei o que se diria disto, agora, mas nos anos 80 os pais acreditavam que era a forma certa de educar. E, ali estava a dona Celina, no cimo das escadas, de cara fechada a fazer o interrogatório: onde, com quem, a fazer o quê. Às vezes era só mais uma volta para ver montras ou o prazer de pedir um bolo ao balcão num café a sério e diferente do bar da escola. O mundo da minha mãe era aquele quintal e o mais longe que ia todas as semanas era à Rua Santa Maria, à casa de bordados. Eu queria mais, mesmo fosse só mais uma rua.
E não, não havia rapazes que, de todos os que conhecia e considerava bonitos, nenhum estava interessado em mim, no desconforto do corpo com a cabeça, da roupa e os sapatos e era tão tímida que ainda corava quando se falava de amor e mais ainda de sexo. A mesma pessoa que precisara de coragem para vencer a vergonha e ler o livro que contava tudo sobre como se faziam bebés. O livro que a minha mãe comprou para me defender do mundo, do qual tive vergonha e que me pareceu complexo, serviu de guia enquanto deixava aos poucos o casulo da adolescência e ganhava a forma de uma mulher. Foi lá que li a primeira frase de Saint-Exupéry, a que diz que “ “somos da nossa infância como de um país”.
Quando percebi isso, que seria da minha infância até morrer, deixei de lutar contra o que me estava a acontecer e abracei a jovem que o espelho me devolvia todos os dias de manhã. Não era mais uma menina no corpo grande e desajeitado, que não sabia pedir um bolo ao balcão de um café e que tinha vergonha de tudo. A rapariga do espelho estava pronta para decidir o futuro, escolher o curso, sonhar com uma carreira e até para se apaixonar e namorar.