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Crónicas

As crianças que nascem num “Mundo novo”

Nos últimos tempos, quando circulo na rua e observo algumas crianças pergunto-me como será que elas se safam com tantas condicionantes e premissas impostas pela sociedade atual. Como será que se conseguem desenvolver num espaço onde o critério é multipolar onde as opiniões são tão divergentes e os conceitos de família tão antagónicos com a prática e a realidade vigente. Este formato em que se pede cedo demais que as crianças cresçam e se desenvolvam num mundo adulto e impiedoso a fazer lembrar a época em que eram mandados para trabalhar sem que tivessem idade para isso. Crescem entre ecrãs, filtros, notificações e comparações permanentes. Crescem num palco onde todos parecem felizes, bonitos, bem-sucedidos e seguros. E onde o erro deixou de ser humano para passar a ser matéria de culpa ou de inferioridade com efeitos notórios no seu estado de espirito mas também no seu ego e confiança.

Antigamente, uma criança queria ser aceite pela turma da escola. Hoje quer ser aceite pelo mundo inteiro. E o mundo inteiro cabe dentro de um telemóvel. As redes sociais transformaram-se numa espécie de montra da perfeição. Corpos perfeitos. Casas perfeitas. Famílias perfeitas. Férias perfeitas. Até a tristeza aparece editada com boa luz e música de fundo. E no meio desta encenação coletiva há crianças e adolescentes a tentar descobrir quem são, enquanto sentem que nunca serão suficientes. Nunca houve tantos estímulos, tanta informação, tantas oportunidades de comunicar e, paradoxalmente, nunca houve tantos jovens emocionalmente cansados, ansiosos, inseguros e sozinhos. Porque viver em comparação permanente é exaustivo. Porque tentar corresponder a expectativas irreais destrói a espontaneidade. Porque uma criança precisa de liberdade para falhar sem sentir que está a perder valor.

Vejo em diversas situações do meu dia a dia que há pais que vivem mais preocupados em parecer bons pais do que em estar verdadeiramente disponíveis. Pais que organizam agendas impossíveis, atividades exemplares, aniversários cinematográficos, fotografias perfeitas para publicar e rotinas milimetricamente estudadas. Tudo impecável por fora. Tudo cansado por dentro. E não há como os filhos não perceberem isso. Percebem quando a atenção é interrompida pelo telefone. Percebem quando os abraços sabem a algo mecânico. Percebem quando os pais estão presentes fisicamente mas emocionalmente ausentes. E sobretudo percebem quando sentem que também elas têm de representar uma personagem de felicidade constante para não desiludir ninguém.

Talvez o maior erro da nossa geração seja acreditar que os filhos precisam de pais perfeitos. Não precisam. Precisam de pais humanos. Pais que falhem. Pais que peçam desculpa. Pais que saibam ouvir sem transformar cada conversa numa lição de moral. Precisam de pais que tenham tempo. Tempo verdadeiro. Não o tempo dividido entre notificações, emails e respostas rápidas. O bem-estar emocional de uma criança não nasce da perfeição do ambiente. Nasce da segurança afetiva. Da sensação de pertença. Da certeza de que pode falhar sem deixar de ser amada.

Uma criança emocionalmente saudável não é a que tem a vida mais organizada ou o currículo mais impressionante. É a que consegue adormecer sem medo de não corresponder às expectativas do mundo. E talvez esteja na hora de os adultos compreenderem que criar filhos felizes não passa por lhes oferecer uma vida perfeita, mas sim uma vida suficientemente segura para que possam ser imperfeitos sem culpa.

No fundo, crescer sempre foi difícil. Mas hoje cresce-se perante uma plateia. Isso é naturalmente mais complexo. Talvez por isso o maior ato de amor moderno seja desligar um pouco o ruído do mundo e voltar ao essencial. Conversar mais. Comparar menos. Escutar mais. Exigir menos. Estar mais. Porque no fim do dia, as crianças não se lembrarão das fotografias perfeitas. Lembrar-se-ão de quem esteve realmente lá.

Frases Soltas:

Terminou o campeonato de futebol, época 25/26 que consagrou o FC Porto como campeão. Nota de destaque para a região da Madeira que volta a ter 2 equipas no principal escalão com a subida do histórico Marítimo e para a liderança (ou falta dela) de um presidente Rui Costa que vai arrastando o Benfica para um marasmo de títulos. Registo também a continuação dos erros de arbitragem que vão falseando muitos resultados e nos mostram que o VAR não é o salvador que muitos preconizavam.

Uma pseudo intelectual de nome Raquel Lima que se dedica à performance e à poesia, sobre manifestações culturais como a tafua ou a oratura, aproveitou o palco para tecer criticas à sociedade portuguesa dizendo que “Portugal começa a cristalizar um lugar conservador que nos atrasa a todos”. Pelos vistos para ela não está a correr assim tão mal…