Bispos "profundamente tristes" com destruições de igrejas em Moçambique
Os bispos moçambicanos manifestaram "profunda tristeza" face às profanações, destruições e ataques contra igrejas cristãs e símbolos religiosos durante incursões armadas em Cabo Delgado, norte de Moçambique, apelando a uma "decisão corajosa" para travar intolerância religiosa.
Numa nota pastoral em que repudiam os ataques contra comunidades cristãs e manifestam solidariedade com a província de Cabo Delgado, a Conferência Episcopal de Moçambique expressa "profunda solidariedade" à Diocese de Pemba e a todos os fiéis que continuam a enfrentar as "dolorosas" consequências da violência, marcada por ataques a pessoas, comunidades e locais de culto.
"Recebemos com profunda tristeza as notícias de profanações, destruições e atentados contra igrejas cristãs e símbolos religiosos. Tais atos ferem não apenas os crentes, mas também a consciência moral de toda a nação e os valores ancestrais do povo moçambicano. Uma igreja destruída é uma ferida aberta no coração do povo; um templo profanado é um atentado contra a dignidade humana e contra o direito fundamental à liberdade religiosa", lê-se no documento, consultado ontem pela Lusa.
Desde Outubro de 2017, Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou mais de 6500 mortos e forçou milhares de deslocados.
Para os bispos, a história de Moçambique foi sempre marcada pela convivência pacífica entre povos, culturas e religiões, daí que "condenam com veemência" todas as formas de extremismo violento e de manipulação das populações - especialmente dos jovens, adolescentes e crianças ---, em nome de interesses religiosos, económicos, ambições de poder e exploração das riquezas naturais.
"Nenhuma convicção religiosa, nem riqueza da terra vale mais do que a vida humana. Nenhum destes interesses pode justificar os deslocamentos de pessoas, as lágrimas, a morte de inocentes e a destruição de comunidades e a profanação de espaços sagrados. A instrumentalização da religião para justificar a violência contradiz os valores da fé cristã, islâmica e das religiões tradicionais africanas", explica-se no documento.
No documento, a Conferência Episcopal de Moçambique pede que se evite todos os atos de intolerância que possam alimentar suspeitas mútuas entre comunidades religiosas que ao longo da história de Moçambique aprenderam a conviver juntas, a dialogar e a partilhar o mesmo destino nacional.
"Lembramos que é dever fundamental do Governo garantir a dignidade humana, a segurança e o bem-estar de todos, protegendo a vida e o património nacional, aspetos que estão a ser gravemente postos em causa em Cabo Delgado, com evidentes sinais do seu alastramento ao resto do país (até ao momento presente pelo menos à região Norte)", avançaram os bispos, propondo ainda que as autoridades tomem uma "decisão corajosa" para "pôr o fim imediato" à intolerância religiosa, que ontem se manifesta sob a forma de "ódio" contra os cristãos.
"Exortamos todas as comunidades religiosas, autoridades civis, organizações da sociedade e pessoas de boa vontade a permanecerem unidas na promoção da paz, do diálogo, da justiça social e da reconciliação nacional. O futuro de Moçambique não pode ser construído sobre a violência, mas sobre a confiança mútua, a verdade, a tolerância e o respeito pela dignidade de cada pessoa", refere-se.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) registou 15 eventos violentos entre 20 de Abril e 3 de Maio em Cabo Delgado, sete envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram 15 mortos, elevando o total para 6.542 os óbitos desde 2017.