Um cortejo por mês
Começo por corrigir uma inverdade: o turismo cresce, mas não é pela excelência das políticas domésticas. Para sublinhar esta evidência, tantas vezes escondida, evoco alguns indícios insuperáveis: o maravilhoso e atraente clima subtropical não foi aprovado em Conselho do Governo Regional; também as estupendas montanhas madeirenses, ou as típicas e atraentes levadas, não foram obra de um plano estratégico regional; de resto, também o Atlântico, agreste e sedutor, não é uma parceria público-privada comandada da Avenida Arriaga; por outro lado, o crescimento turístico mundial, após a pandemia, também não nasceu de uma reunião da Secretaria do Turismo com a OMS; nem as guerras da Ucrânia, as convulsões da primavera árabe ou a mais recente Guerra do Golfo, foram consequência do trabalho de uma qualquer unidade secreta do turismo regional para aniquilar a concorrência.
A Madeira cresceu porque é um destino raro, seguro, bonito, climaticamente privilegiado, visualmente poderoso. Mas, sobretudo, é um destino cada vez mais acessível através da aviação low-cost e da explosão da digitalização global. Duas tendências sem qualquer relação com políticas do burgo! O turismo madeirense tem dinâmica porque tem um setor privado com empresários empreendedores e entendedores dos meandros competitivos do setor. Cresceu, também, por razões geográficas e geopolíticas que nenhum governante regional controla. Num mundo atravessado por guerras, instabilidade e insegurança em vários destinos concorrentes do Mediterrâneo, Norte de África e Médio Oriente, a Madeira passou a beneficiar, ainda mais, da sua posição atlântica, europeia e distante dos grandes focos de tensão internacional.
Enquanto muitos destinos turísticos concorrentes enfrentavam instabilidade política, conflitos ou perceção de insegurança, a Madeira consolidava-se como uma espécie de refúgio climático e geográfico no Atlântico. Mas não por decreto regional.
Mas estamos hoje numa nova fase da governação turística: a teoria do desfile perpétuo. Se um agrada muita gente, dois agradará muito mais. E por aí adiante! Portanto, se uma festa corre bem, repete-se. Se dois cortejos enchem ruas, então quatro devem ser extraordinários. Ou talvez 12: um em cada mês!
O pensamento é primário e fácil de compreender: se a Festa da Flor, ou o cortejo do Carnaval, tem impacto mediático, porque não prolongar, repetir, insistir! É neste contexto que emerge uma questão verdadeiramente fascinante do ponto de vista económico: haverá um limite para o benefício turístico da repetição permanente do mesmo tipo de evento? A avenida Arriaga não estudou o tema, mas isso parece ser irrelevante para quem diz dirigir os fluxos turísticos para a Região!
Para quem não sabe, existe um conceito clássico chamado “rendimentos decrescentes”. A ideia é simples e profundamente aplicável ao turismo. O primeiro grande cortejo/festa pode gerar novidade, notoriedade internacional, aumento de procura e valorização simbólica do destino. O segundo, talvez ainda prolongue estadias e distribua visitantes por mais dias. Mas a repetição excessiva começa inevitavelmente a degradar aquilo que inicialmente criava valor. Até a Avenida Arriaga deve ser capaz de compreender: o que era raro torna-se banal; o que era experiência transforma-se em rotina; o que era identidade converte-se em programação contínua sem valor. Deve ser fácil de compreender que a economia do turismo não funciona segundo a lógica infantil do “se uma flor é bonita, um camião de flores deve ser genial”.
Aliás, a literatura sobre turismo e eventos alerta precisamente para isso: os destinos mais bem-sucedidos não são os que acumulam eventos sem critério, mas os que conseguem equilibrar a atratividade, a autenticidade, a capacidade de carga e a qualidade de vida dos residentes. Sendo assim, um evento deve integrar a estratégia territorial, combater a sazonalidade, distribuir fluxos de turistas e acrescentar valor.
Pelos lados da quinta vigia parece ter-se desenvolvido a convicção de que qualquer problema estrutural no setor pode ser tratado com animação de rua. Quem não entende leva com impropérios e injurias, estejam onde estiverem. Há congestionamento? Organize-se um cortejo. Há saturação urbana? Monta-se um palco. Há pressão sobre habitação e mobilidade? Lança-se mais uma semana temática com fogo-de-artifício e concertos alegóricos.
No atual ritmo infernal, estamos a caminho de institucionalizar um cortejo mensal, seja da flor, seja do vinho, seja do disfarce carnavalesco, seja do rum, seja do Atlântico, com foguetes e tudo. A Madeira tornar-se-ia finalmente num destino onde é impossível distinguir política turística da festivalização do território, numa espécie de turismo de montra alegórica.
Entretanto, enquanto se discutem estas trivialidades, surge um banho de realidade a meio dos cortejos. Refiro-me à estranha preocupação da Avenida Arriaga relativamente às limitações de jet fuel e ao eventual impacto sobre operações aéreas. Devo dizer que considero este momento da maior importância, porque é particularmente pedagógico. Vejam bem. Esta epifania revela, em todo o seu esplendor, uma verdade desconfortável: o turismo da Madeira depende muito mais da conectividade aérea internacional, da estabilidade geopolítica e das dinâmicas do mercado da aviação do que do número de cortejos por ano!
Estou em “pulgas” para assistir a uma conferência de imprensa, em linha com a narrativa oficial: o Governo, ao lado do José da easyJet, ambos garantindo solenemente aos madeirenses que não haverá redução de operações para a Região, revelando o controlo sobre o Jet fuel que sustenta as operações aéreas e permitem o crescimento do turismo! Mas não. Não acontecerá. Só a(s) careca(s) se destapa (m)!
Deixem-me, por isso, ser mais claro sobre a política do turismo. O que é difícil é ordenar o território; é equilibrar turismo e habitação; é proteger autenticidade, e retirar valor, sem transformar a ilha num parque temático em alegoria contínua; é valorizar o património ambiental, mesmo que em contexto de exploração turística; é perceber que destinos turísticos não morrem apenas por falta de visitantes, sabendo que esses são o cerne, mas também podem degradar-se por excesso de exploração, ausência de gestão e défice de conhecimento básico das razões que orientam os fluxos turísticos, num plano internacional fortemente competitivo.