A Política dos Ideais
A social-democracia foi a grande arquiteta dos maiores níveis de bem-estar da história da humanidade. No século XX, provou o que muitos julgavam impossível: conciliar a pujança do desenvolvimento económico com o imperativo da justiça social. Contudo, para que este legado sobreviva ao século XXI, é urgente resgatar a essência dos nossos ideais, libertando-os do “peso morto” da ideologia rígida. Num mundo em transformação acelerada — a um ritmo que desafia qualquer era anterior — a ideologia corre o risco de se tornar um espartilho mental, uma barreira que nos isola da realidade.
Quando transformamos métodos em dogmas, invertemos a lógica política: os meios passam a ser mais sagrados do que os fins. Ora, o fim último da política deve ser, invariavelmente, a dignidade e a felicidade dos cidadãos. A ideologia cega gera um divórcio perigoso entre a decisão política e a resolução efetiva dos problemas sociais. Muitas vezes, esta rigidez nasce da insegurança ou do medo da acusação de “traição” aos princípios fundadores. Mas é preciso dizer com clareza: a verdadeira traição não é inovar; a verdadeira traição é agarrar-se a teses de tempos extintos perante desafios inéditos. Erigir muros contra o pensamento crítico e o diagnóstico técnico em nome da “pureza” ideológica é o caminho mais curto para produzir resultados opostos aos que pretendidos.
Nas últimas décadas, a grande operação de modernização da esquerda democrática foi operada pelo New Labour e pela chamada “Terceira Via”. Se olharmos para os factos e para os números, os resultados são difíceis de ignorar. Entre 1997 e 2010, o número de crianças a viver em pobreza relativa no Reino Unido caiu em cerca de 600 mil, invertendo uma tendência de agravamento herdada das décadas anteriores e que viria novamente a acentuar-se após 2010, com um aumento de cerca de 900 mil crianças em situação de pobreza.
No plano da saúde, os tempos de espera no NHS registaram uma redução histórica: a percentagem de doentes a aguardar mais de 12 meses por tratamento caiu de níveis significativos no final dos anos 90 para praticamente zero em meados da década de 2000, enquanto o investimento público em saúde duplicou em termos reais.
Na educação, os progressos foram igualmente mensuráveis. Entre 1997 e 2010, a taxa de aprovação nos exames GCSE (realizados no final do 11.° ano) subiu de cerca de 45% para mais de 70%, enquanto os níveis de literacia e numeracia no ensino básico atingiram máximos históricos, em resultado de programas como o National Literacy Strategy e o Numeracy Strategy.
Tudo isto foi acompanhado por um desempenho económico robusto: o Reino Unido registou crescimento contínuo durante mais de uma década (1997–2008), com taxas médias superiores às verificadas em grande parte dos anos 80 e início dos anos 90, bem como níveis historicamente baixos de desemprego e inflação estável.
Os nossos valores devem permanecer inegociáveis: a proteção de quem trabalha, a defesa do ambiente, a justiça social e a robustez do Estado de Bem-Estar Social. No entanto, os instrumentos para os concretizar têm de evoluir à velocidade do mundo; a justiça social num mercado globalizado exige ferramentas que o século passado desconhecia.
Estar à altura dos nossos fundadores ideológicos não é repetir as suas soluções por hábito, mas sim repetir a sua coragem. Eles foram revolucionários porque souberam responder aos desafios do seu tempo com as ferramentas mais avançadas da sua época. A nossa missão é fazer o mesmo: honrar o passado através da inovação no presente. Só assim garantiremos que o pragmatismo e o pensamento crítico continuam a ser os motores de uma sociedade mais justa, próspera e, acima de tudo, humana.
Diogo Alves