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Crónicas

Trumpalhadas do diabo

Quem é que não está farto de Donald Trump? É incrível a capacidade do presidente americano para angariar inimigos, acicatar instituições e mais importante e profundo, desestabilizar a vida de milhões de pessoas um pouco por todo o Mundo, seja através da subida do preço de combustíveis e de diversas outras matérias primas como também na instabilidade que as suas decisões e comentários acarretam na esfera global. O que estamos a assistir não é apenas uma política externa agressiva. É uma tentativa deliberada de redesenhar o sistema internacional. As organizações multilaterais, da NATO às Nações Unidas, deixaram de ser instrumentos de equilíbrio para passarem a ser obstáculos a contornar. A própria ideia de alianças está a ser corroída por uma lógica transacional, ou servem interesses imediatos, ou são descartáveis.

Quando um Presidente dos Estados Unidos ameaça abandonar a NATO ou a esvaziar o seu papel, não está apenas a enviar uma mensagem à Europa. Está a abrir uma fenda na arquitetura de segurança construída após a Segunda Guerra Mundial. E essa fenda não se fecha facilmente. Pelo contrário, alarga-se a cada gesto unilateral e a cada desconfiança semeada entre aliados.

Ao mesmo tempo, a política externa transformou-se numa sucessão de confrontos. O conflito com o Irão que muitos aliados recusaram acompanhar é apenas um exemplo de uma estratégia que parece viver da tensão permanente. A guerra, ou a sua iminência, deixou de ser o último recurso para passar a ser a normalização de um tempo onde tudo parece em perigo como se pusessem uma arma nas mãos de um louco e lhe pedissem para proteger a civilização.

Mas talvez o traço mais revelador deste tempo não esteja na geopolítica, mas na simbologia. Quando um líder político decide responder a críticas morais com ataques pessoais à Igreja e até com representações de si próprio em figura messiânica já não estamos apenas no campo da política. Estamos no território da encenação do poder. O confronto com o Papa não é um episódio menor. É um sintoma. Um sinal de como a autoridade moral, tradicionalmente separada do poder político, está a ser desafiada, instrumentalizada e, em última instância, desvalorizada. Quando se deslegitima a crítica ética, abre-se espaço para uma política sem travões, uma política onde tudo é permitido desde que seja eficaz.

E é aqui que reside o verdadeiro risco. Não é apenas o que Trump faz. É o precedente que cria. A ideia de que regras internacionais são opcionais. Que alianças são contratos de curto prazo. Que a moral é um acessório e não um limite.

O Mundo já conheceu líderes fortes. Já conheceu momentos de tensão global. Mas raramente assistiu a uma combinação tão volátil de poder, imprevisibilidade e desdém pelas estruturas que, imperfeitas como são, ainda mantêm alguma ordem. O resultado? Um sistema internacional mais frágil, mais desconfiado e, inevitavelmente, mais propenso ao conflito. Enquanto a China vai assistindo de cadeirão ao esbanjar de décadas de união e liderança do Ocidente, a fazer lembrar Napoleão e a celebre frase “nunca interrompas o teu inimigo quando ele está a cometer um erro”, fica a dúvida, todos os dias ao acordar, de qual será a estupidez ou a ofensa que irá sair hoje daquela boca. Será que ninguém entre os lambe botas que o acompanham, consegue ter um pouco de discernimento e clarividência e lhe dá um chuto no rabo? E que consequências sobrarão para nós num futuro próximo?