Somos o que lemos
No meio de aulas e do estudo, passo horas e horas nas redes sociais e acabo sempre a dizer o mesmo, “não tenho tempo para ler”
Numa era cada vez mais digital, pegar num livro parece um ato quase rebelde: sentir o cheiro de um acabado de comprar, fazer coleção dos diferentes marcadores de cores diversas ou mesmo ir a uma livraria só para ler sinopses tornaram-se pequenos hábitos distantes numa realidade apressada. Os preços assustam alguns. É difícil saber onde investir, outros veem maior facilidade em ler apenas cabeçalhos nas redes sociais. Será que a leitura desapareceu?
Por tantas questões como esta, no primeiro dia da 52.ª edição da Feira do Livro do Funchal, a Académica da Madeira, com o apoio da Associação para Promoção da Herança Madeirense, recebeu em estúdio Álvaro Cúria e Ludgero Cardoso para a gravação de mais um Peço a Palavra, uma parceria com a TSF-Madeira. A dupla é autora da página de Instagram “Literacidades”, dedicada à promoção de hábitos literários.
À conversa com Gonçalo Nuno Martins, Luís Eduardo Nicolau e eu própria, foram exploradas diversas temáticas acerca de como atualmente lemos, o valor que damos à cultura e, inevitavelmente, o papel central que hoje as redes sociais ocupam no nosso quotidiano.
Com as várias rubricas do programa, foi questionado se realmente os jovens estavam a ler menos ou se estava simplesmente a mudar a forma como eles leem. A verdade é que estamos cada vez mais a cair na tentação do scroll infinito, em que lemos fragmentos de histórias, títulos perdidos ou resumos das opiniões de outros sem efetivamente criarmos a nossa. Como Ludgero disse, falta-nos o tédio para aprendermos o prazer que é nos deitarmos no sofá a ler durante horas sem ter noção daquilo que se passa à nossa volta.
Se calhar eu também sou vítima deste fenómeno. No meio de aulas e do estudo, passo horas e horas nas redes sociais e acabo sempre a dizer o mesmo, “não tenho tempo para ler”, uma talvez mentira para a minha má gestão. Olho para a minha cabeceira, vejo a coluna de livros a crescer e penso que depois leio, um depois que nunca chega, nem para os poemas de Alberto Caeiro que tanto admiro.
A qualidade e quantidade de livros que temos à nossa disposição também foi posta em prova, sobre a qual Álvaro elogiou a democratização do acesso à escrita e à publicação, onde vemos autores cada vez mais novos a poder divulgar o seu trabalho e a criar o seu espaço no mercado. Porém, aspetos como a falta de qualidade na revisão por aposta no que irá trazer mais lucros ou uma massificação da publicação “para ver qual dá”, obriga o leitor a ser mais seletivo do que nunca. Aqui entra o valor das aulas de português, em que as obras não são introduzidas pelo prazer da leitura, isso vem de cada um, mas para aprendermos a interpretar o que nos rodeia. Os preços também são um impedimento que a oferta mais diversificada das bibliotecas tem vindo a contrariar.
A Feira do Livro do Funchal também foi apresentada como sendo de grande renome a nível nacional, por valorizar tanto a componente social como a cultural num sentido mais transversal, trazer uma grande variedade de autores e dar destaque ao panorama regional.
Assim, foi pedida a palavra a mais duas vozes do contexto literário, num episódio que toca em áreas tão diversas, e que nos faz pensar naquilo que valorizamos. Mais meia hora no TikTok, ou investir numa obra que pode mudar a minha visão da vida? Como Camões dizia, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – a leitura permanece, o fenómeno do BookTok demonstra isso mesmo, mas será que não estamos lentamente a perder o seu valor?