O engodo dos ‘teleféricos do Curral’ e do ‘golfe do Faial’

Este pequeno artigo não pretende ser um ataque nem uma defesa destes empreendimentos. É apenas uma constatação: quem pode, nesta ilha, pode mesmo. E, pelos vistos, também pode enganar o madeirense com algum estilo.

Quando ouvimos os promotores destes empreendimentos, que me recuso a chamar de «investimentos», e já lá iremos, bradar aos sete ventos que serão uma mais-valia para as respetivas localidades, prometendo isto e aquilo, recorrendo a uma série de palavras caras que quase arrisco dizer que nem eles próprios sabem muito bem o que significam, fico sempre a pensar: mais-valia para quem?

Alguém acredita verdadeiramente que os tantos postos de trabalho anunciados serão ocupados por madeirenses? Talvez com exceção daquele gestor escolhido a dedo, provavelmente próximo de uma ou outra pessoa que tenha facilitado o papelinho necessário para que tudo avançasse. Acham mesmo que será diferente da realidade da hotelaria madeirense, onde a mão de obra madeirense é cada vez mais uma raridade?

Atenção: nada contra aqueles que vêm de fora, que trabalham, dão o corpo ao manifesto, aguentam e descontam, contribuindo também para sustentar as confortáveis reformas de alguns dos habituais donos disto tudo. Mas esta realidade demonstra precisamente aquilo que muitos parecem não querer perceber: o madeirense não é que não queira trabalhar. É que sabe, mesmo que tacitamente, que os salários oferecidos por estes empreendimentos dificilmente lhe permitirão progredir na vida ou sequer pagar a prestação da casa.

É quase anedótica a premissa liberal de que «se o patrão quiser pagar 2.000 euros, existem uma série de entraves que não o permitem». A verdade, porém, é bem mais simples: o patrão não quer pagar! E é precisamente por isso que continuaremos a ter trabalhadores estrangeiros a ocupar postos de trabalho que, em muitos casos, poderiam e deveriam ser muito mais bem remunerados.

Por isso, não. O verdadeiro investimento parece ser, sobretudo, para os donos disto tudo, que provavelmente já estarão à procura de compradores para os seus «investimentos imobiliários», que ficam sempre muito mais valorizados quando colocados estrategicamente ao lado de um campo de golfe e de outros empreendimentos do género.

Mas está tudo bem. Afinal, enquanto os mais lúcidos reclamam mudanças profundas naquilo que realmente importa para o futuro da Madeira, o debate público entretém-se a discutir se as tendas do Rossio são “made in Bangladesh”.

João Freitas