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Ronaldo é o primeiro capitão a abandonar um estágio da Selecção?

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A pergunta surge depois de Cristiano Ronaldo ter abandonado o estágio de Portugal, na véspera do jogo com a Dinamarca, que se disputa logo às 19h45, em Copenhaga. Mas será mesmo um caso inédito de insubordinação na história da Selecção Nacional? Terá sido o primeiro do género protagonizado por um atleta com responsabilidades acrescidas de capitão? A resposta a esta questão que em suscitado aceso debate à volta do globo e que é já assunto de Estado obriga a recuar quatro décadas e a distinguir as motivações dos conflitos, rupturas e abandonos de profissionais de futebol em estágios oficiais da equipa de todos nós.

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Nos casos de conflito entre internacionais AA e dirigentes técnicos da selecção portuguesa de futebol, há pelo menos um precedente protagonizado também por um capitão, embora por motivações distintas das que originaram o polémico caso protagonizado por Cristiano Ronaldo, ontem, em Copenhaga.

1986 — Saltillo: o capitão no centro da revolta

Aquele que terá sido o primeiro grande precedente, remonta ao Mundial do México, em 1986. A Selecção portuguesa, orientada por José Torres, entrou em ruptura com a estrutura dirigente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) durante o estágio em Saltillo. O Mundial 1986 ficou marcado por um dos maiores escândalos da história da seleção portuguesa. Em Saltillo, cidade onde a equipa ficou concentrada, surgiram ameaças de greve dos jogadores por conflitos com a Federação sobre prémios, condições e organização.

Quando o país se afirmava no plano democrático, o futebol português dava um salto competitivo e os profissionais tornavam-se mais reivindicativo em relação às condições da preparação física e logística. Os problemas disciplinares e de liderança no balneário contribuíram para o ambiente de rutura total entre plantel, equipa técnica e dirigentes, condicionando os treinos e, por conseguinte, o desempenho da selecção nacional nos últimos dois jogos.

Manuel Bento, capitão da equipa, assumiu um papel central nesta contestação corporativa e sindical, tendo lido um comunicado colectivo em nome dos jogadores. Quarenta anos depois, protagonistas daquele episódio continuam a rejeitar a versão de que tenha existido uma greve nos moldes em que o caso ficou conhecido e muitos afirmam que nunca deixaram de treinar.

Porém, no caso Saltillo a única relação directa com o episódio de Ronaldo é o facto de o principal protagonista da posição de afronta – o alvo foi a estrutura da FPF - ter sido o capitão da selecção nacional – Manuel Bento – a comandar a revolta durante o estágio. No entanto, nem o capitão, nem a restante equipa abandonou individualmente a concentração em conflito com o seleccionador. Foi mais uma revolta reivindicativa dos jogadores para com a estrutura federativa, do que uma ruptura individual entre capitão e seleccionador.

1997 — Sá Pinto contra Artur Jorge

Onze anos depois, outro episódio marcou a relação entre um internacional e um seleccionador, naquele que foi porventura o episódio de indisciplina mais físico (para não dizer violento) entre um futebolista e um responsável máximo pela equipa técnica de Portugal A.

Ricardo Sá Pinto, descontente por não ter sido convocado para o jogo com a Irlanda do Norte, dirigiu-se ao Estádio Nacional para confrontar Artur Jorge. O encontro terminou com a agressão física ao seleccionador e ao adjunto Rui Águas.

O episódio teve enorme repercussão. Ricardo Sá Pinto foi o jogador que sofreu o maior castigo das instâncias disciplinares do futebol português. O Conselho de Disciplina aplicou-lhe uma suspensão de um ano. A punição foi adpotada pela FIFA, que o suspendeu de todas as competições, obrigando a que o antigo avançado do Sporting cumprisse parte do castigo na Real Sociedad, clube para onde se havia transferido.

O caso Sá Pinto foi um episódio de conflito extremo devido à ruptura pessoal com o seleccionador, por discordar das opções técnicas, não de abandono de estágio, pois o jogador não tinha sido sequer convocado e, como tal, não integrava a concentração.

2003-04 — Vítor Baía e Scolari

Com Luiz Felipe Scolari surgiu outro dos conflitos individuais da história recente da Selecção nacional de futebol. Vítor Baía, uma das referências da equipa portuguesa e até então o dono da baliza das Quinas, foi afastado das convocatórias por Luiz Felipe Scolari depois do Mundial de 2002.

Na primeira convocatória de Scolari, para o particular com a Itália, em Fevereiro de 2003, Baía ficou logo de fora. Uma ausência que gerou estupefacção, pois o guarda-redes tinha sido presença habitual na Selecção.

Anos depois, Scolari justificou a ausência com informações que recebera sobre um alegado conflito entre Baía e o treinador do FC Porto. O guarda-redes rejeitou as explicações e acusou a FPF e Scolari de “má fé e maldade”.

Este foi efectivamente um conflito, entre um internacional e o seleccionador, que chegou ao espaço público. Envolveu um dos jogadores de maior estatuto da Selecção, mas não era o capitão da equipa (no Mundial de 2002, Portugal era capitaneado por Fernando Couto, enquanto Figo e Pauleta também assumiram responsabilidades de liderança) e, contrariamente ao caso Ronaldo, Baía não abandonou o treino ou o estágio da selecção.

2010 — Ronaldo e Carlos Queiroz

Há 16 anos, o próprio Cristiano Ronaldo já tinha protagonizado um episódio de tensão pública com um seleccionador. Depois da eliminação de Portugal perante a Espanha no Mundial de 2010, Ronaldo foi questionado sobre as razões do fracasso. O capitão recusou responder directamente e remeteu os jornalistas para Carlos Queiroz: “Falem com o Queiroz.”

A frase tornou pública uma relação já marcada por tensão entre o responsável técnico e alguns jogadores (Pepe foi um dos que criticou as opções), mas Ronaldo não abandonou a concentração portuguesa. Apenas lançou este desabafo aos microfones dos jornalistas já no túnel à saída dos balneários, logo depois da eliminação de Portugal frente à Espanha (1-0), nos oitavos de final do Campeonato do Mundo da África do Sul em 2010.

2011 — Ricardo Carvalho: o precedente mais próximo

O conflito entre Ricardo Carvalho e Paulo Bento foi, porventura, o episódio de insubordinação mais próximo do caso Ronaldo.

Em Agosto de 2011, Ricardo Carvalho abandonou o estágio da Selecção em Óbidos, antes da deslocação ao Chipre, depois de perceber que não seria titular. A FPF informou depois que o jogador se tinha ausentado “por iniciativa própria” e sem comunicar à direcção da Federação ou ao seleccionador. Paulo Bento confirmou que Carvalho não seria titular (Pepe assumiria o papel de patrão da defesa) e classificou a saída como uma deserção.

Dois dias depois, Ricardo Carvalho explicou a sua versão em entrevista à RTP: “Sim [magoou]. É muito forte, uma linguagem militar, chamar-me desertor. Com a mesma linguagem, eu podia chamar-lhe mercenário. Quando alguém vai para guerra pago, chama-se mercenário. Eu estou na selecção por amor, ele é seleccionador porque lhe pagam. Não merecia que me tratasse dessa maneira”.

A semelhança com o caso de Ronaldo é evidente: um jogador de enorme estatuto – 33 anos e 75 internacionalizações – insurgiu-se contra uma decisão técnica sobre a sua (não) utilização, descontentamento com o seleccionador e abandono unilateral da concentração. Porém, a responsabilidade de Ricardo Carvalho não tem a mesma dimensão, pois não era o capitão das Quinas.

2022 — Ronaldo e Fernando Santos

No Mundial do Qatar, Ronaldo voltou a protagonizar uma situação de tensão com o seleccionador. A 8 de Novembro de 2023, Fernando Santos deixou-o no banco, no jogo frente à Suíça, nos oitavos de final do torneio, depois de uma conversa individual em que explicou a decisão. O seleccionador admitiu depois que Ronaldo não ficou satisfeito com a sua opção táctica, mas garantiu que o jogador nunca lhe disse que pretendia abandonar a selecção.

“Fui explicar que ele não ia jogar e ele interpretou mal”, afirmou Fernando Santos que chegou a chamar o jogador ao seu gabinete no próprio dia do jogo, a seguir ao almoço, para elucidá-lo das opções decorrentes da estratégia táctica e por uma questão de “consideração” e “transparência”.

Ronaldo acatou a decisão para o encontro, mas o choque de ver a sua titularidade retirada não evitou cicatrizes numa relação que até então parecia pacífica. Também a FPF veio a terreiro deitar ‘água na fervura’, para desmentir publicamente que Ronaldo tivesse ameaçado abandonar a equipa durante o estágio.

2026 — Ronaldo e Jorge Jesus

O abandono de Cristiano Ronaldo deixou de ser uma ameaça e veio a concretizar-se quatro anos depois. Durante o estágio da selecção portuguesa na Copenhaga, em vésperas do jogo oficial com a Dinamarca a contar para a Liga das Nações, o futebolista português mais galáctico de sempre volta insubordinou-se e voltou as costas às Quinas, numa dimensão sem precedentes.

Ronaldo já ameaçara ir embora logo que sentisse que não “estava ali a fazer nada”, reagindo ao facto de não ter sido utilizado frente à Noruega. Seguiu-se a preparação do jogo contra a Dinamarca sem ‘paninhos quentes’ e com a ausência do capitão no treino de adaptação ao relvado. A gota de água terá sido a conferência de imprensa em que Jorge Jesus garantiu publicamente que ‘Cris’ iria participar no treino. "Na equipa mando eu. O Ronaldo não se recusou a treinar. Isso era impossível. Hoje vai treinar. Quando trabalhei com ele no Al Nassr, nos dois dias a seguir aos jogos, o Ronaldo nunca treinava. E foi isso que aconteceu", explicou o veterano treinador de 72 anos a ausência do veterano atacante de 41 anos.

Fazendo a antevisão do jogo frente à Dinamarca, em partida da terceira jornada do Grupo A1, da Liga das Nações, o caso que Jesus negava voltava a ser tema. O seleccionador português afirmou que Ronaldo voltaria a sentar-se no banco de suplentes. "Em princípio, é o Gonçalo Ramos que vai jogar. O Ronaldo não sei se vai entrar ou não. Não sei o que vai acontecer amanhã [quinta-feira] no jogo. Se eu precisar, ele entra, se eu não precisar, ele não entra", sentenciou.

Pouco depois da conferência de imprensa, Ronaldo deixou o Estádio Parken e abandonou abandonar o estágio. O próprio jogador confirmou a saída e deixou uma declaração que mantém em aberto a explicação para o conflito: “A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída”. O capitão da selecção chamou o seu jacto privado a Copenhaga e embarcou para casa em Madrid.

23 anos depois de estrear-se de Quinas ao peito, o recordista mundial de jogos por selecções, com 234 internacionalizações 'AA', e de golos, com 146 tentos, Cristiano Ronaldo tomou a decisão de abandonar o estágio da equipa, depois de ter sido titular no duelo com o País de Gales (1-0) e de ser suplente não utilizado na partida com a Noruega (2-1).

Ronaldo ter-se-á sentido traído pela expectativa de que teria minutos durante o jogo com a Dinamarca e terá lidado mal com isso depois de, durante o encontro com a Noruega, ter sido chamado por Jorge Jesus para aquecer no decorrer da segunda parte sem que tivesse saído do banco.

A 23 de setembro de 2026, durante a conferência de imprensa de antevisão ao jogo entre Portugal e o País de Gales, o craque madeirense respondia assim, ao ser confrontado pelos jornalistas sobre a sua condição física actual, a capacidade para aguentar os 90 minutos em campo e a forte concorrência no ataque da Seleção: "Quando sentir que não estou aqui a fazer nada, sou o primeiro a fazer a mala."

Decidiu abandonar, por sua livre e expontânea vontade, o estágio da Selecção na qual é a figura mais proeminente e mediática, sabendo de antemão as consequências que tal insubordinação representa para si e para a equipa que capitaneava, na véspera de um jogo importante.

Embora Ronaldo ainda não tenha apresentado a sua versão, a sequência dos factos aponta para um conflito evidente com Jorge Jesus em torno de opções técnicas do seleccionador, que terão levado o capitão a sentir-se injustiçado ou excluído e a tomar uma decisão unilateral e inédita, pelo menos nos últimos 40 anos de estágios oficiais de Portugal AA, entre capitães da selecção nacional. 

Ronaldo é o primeiro capitão a abandonar um estágio da Selecção?