Quando o bispo do Funchal afirmou que os cristãos não deviam votar em padres políticos
Há 30 anos, em plena campanha para as eleições regionais, em que os padres Edgar Silva e Mário Tavares concorriam a deputados nas listas da CDU, o DIÁRIO colocou ao então bispo do Funchal, Teodoro de Faria, um conjunto de questões sobre a participação de sacerdotes na política. As suas respostas, embora telegráficas, tiveram grande impacto e geraram reacções.
O histórico de envolvimento directo de padres na vida política madeirense é longo e chegou com o sistema democrático e o regime autonómico. Logo em 1976, o padre Martins Júnior foi eleito deputado ao parlamento regional nas listas da UDP pelo círculo de Machico. Em 1992, o padre Mário Tavares veio a ser eleito deputado em representação da CDU. Para as eleições marcadas para 13 de Outubro de 1996, adivinhava-se uma intensificação dessa participação de membros do clero na política. Pela primeira vez, dois padres pareciam ter hipóteses de ser eleitos -Mário Tavares e Edgar Silva, ambos nas listas da CDU.
Foi neste contexto que na edição de 24 de Setembro de 1996, o DIÁRIO apresentou uma longa reportagem, assinada pela jornalista Rosário Martins, sobre o tema da entrada dos padres no mundo da política. Uma das opiniões registadas foi a do bispo do Funchal. As questões foram remetidas via fax para o Paço Episcopal e as respostas de Teodoro de Faria foram dadas na mesma folha. Foram respostas telegráficas e algumas reduziam-se a máximas bíblicas. Reproduzimos agora na íntegra, tal como há 30 anos, essa curta entrevista por escrito:
DIÁRIO - Como vê a participação dos sacerdotes na política actual?
Teodoro de Faria - Com pena! Padres na política? Obrigado, não.
DIÁRIO - Considera que a credibilidade da Igreja poderá estar em causa com o envolvimento dos sacerdotes na política?
Teodoro de Faria - A Igreja não, os padres sim; O sal perdeu a força! Um cristão consciente não vota neles.
DIÁRIO - O que estipula o Direito Canónico nesta matéria?
Teodoro de Faria - O que todos sabem: abster-se.
DIÁRIO - Negar o envolvimento dos padres na política é ir contra o "Princípio da Laicidade"?
Teodoro de Faria - Leia o que escreveram os padres maçónicos do século passado!
DIÁRIO - Qual será a posição da Diocese do Funchal face ao envolvimento dos sacerdotes já conhecidos na política?
Teodoro de Faria - A Deus o que é de Deus, a César o que é de César.
Estas declarações não caíram bem na candidatura da CDU. No próprio dia 24 de Setembro, numa acção de campanha, o cabeça-de-lista da coligação pelo círculo do Funchal, Edgar Silva, acusou o bispo do Funchal de "fazer campanha eleitoral pelo PSD". Em declarações aos jornalistas após um encontro com trabalhadores da construção civil, o candidato foi sarcástico: "Nestas eleições, nesta campanha, o PS e o PSD apostaram em duas atracções. O PS apostou no Quim Barreiros, o PSD apostou no Circo Cardinalli e no bispo do Funchal. Lamentamos que o bispo do Funchal aceite ser atracção do PSD ao jeito do Quim Barreiros para o PS".
As eleições de 13 de Outubro de 1996 voltariam a ser ganhas pelo PSD com maioria absoluta, mas a CDU veio a eleger pela primeira vez dois deputados. Edgar Silva e Leonel Nunes foram eleitos no círculo do Funchal. Já Mário Tavares falhou a eleição pelo círculo de Câmara de Lobos.