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Rostos da Autonomia Madeira

Das bases da 'jota' para a primeira linha política

Começou muito cedo na actividade política, dinamizou a Juventude Socialista e, mais tarde, liderou o PS. Destes 50 anos de Autonomia destaca a Educação e a Saúde, como o mais positivo e a falta de alternância como o ponto mais negativo.

Victor Freitas veio de Moçambique , com os pais e dois irmãos, em 1976, completaram-se 50 anos neste mês. Era uma criança e viveu a realidade de tantos portugueses que regressaram das colónias, depois da independência. Foi para Santana e enfrentou uma realidade rural muito diferente da que tinha em Moçambique.

Deputado, ex-líder da Juventude Socialista e do PS-Madeira, é o entrevistado de ‘Rostos da Autonomia’, uma iniciativa do DIÁRIO com o apoio da Assembleia Legislativa da Madeira para comemorar os 50 anos da Autonomia.

E foi no concelho do Norte que, ainda com seis anos, andou de porta em porta, com o irmão mais velho, a recolher assinaturas para um abaixo-assinado, promovido pelo pai a pedir uma estrada. Como recorda, levavam uma caixa de graxa de sapatos para as pessoas marcarem o dedo porque a maioria não sabia assinar.

"O meu primeiro acto político, se assim se pode dizer, foi recolher assinaturas a pedir uma estrada. Era ainda uma criança, tinha 7, 8 anos, e o meu papel era levar as folhas que o meu pai tinha preenchido, que eram aquelas folhas azuis de 25 linhas que hoje as novas gerações não sabem o que é. O meu papel era recolher assinaturas para pedir uma estrada, e íamos de casa a casa, muitas das pessoas não sabiam assinar e nós levávamos graxa de sapatos para as pessoas colocarem o dedo e nós íamos preenchendo".

Em Santana, ainda adolescente, criou uma associação de jovens que acabaria por não ter apoios oficiais porque “foram ver quem eram”.

"Em 1993, nós estávamos a criar uma associação de jovens em Santana e viemos aqui ao Centro de Juventude, na altura era, salvo erro, a doutora Dalila Muller presidente e estava ela e uma jurista e fizemos uma proposta de estatutos para criar essa associação de jovens em Santana. Criar, ou melhor, legalizar, porque nós já tínhamos um espaço alugado, já fazíamos uns bailes, já reuníamos todos os domingos depois da missa das onze, e às vezes antes da missa, nesse espaço que já alugávamos e pagávamos com as receitas dos bailes. Fomos tão bem recebidos na direção regional de juventude, deixámos aquilo que pretendíamos. Mas durante a semana andaram a tirar informações de quem eram as pessoas em causa, e depois, na data acordada, nós viemos ao Funchal e já não somos recebidos pela senhora directora, já somos recebidos por uma jurista que diz que era impossível, que não se podia criar aquela associação".

Mais tarde adere à JS e ao partido e torna-se líder dos jovens socialistas, cargo que irá marcar a sua carreira política.

"Em cerca de um ano, inscrevi mais 150, só que havia um problema, as pessoas chegavam aos 18 anos e emigravam em massa e eu recordo ter uma estrutura que tinha, além dos militantes todos, um corpo directivo de cinco, mais cinco no secretariado e três na mesa da Assembleia Geral e de um momento para o outro vejo-me só com um, todos os outros emigraram".

Tempo de consolidação da autonomia mas também de um crescimento económico, suportado em apoiso europeus.

"Nós tivemos  datas simbólicas, positivas para mim, que são revolução do 25 de abril, em 74, em 76 a consagração da Autonomia, que fez os tais 50 anos no dia 2 de Abril deste ano, e a adesão à União Europeia.  O processo de adesão foi fundamental para começar a fixar e a criar a economia que a Madeira não tinha, e esse processo de adesão levou a uma transformação. Eu recordo que uma pessoa via os anúncios a contratar funcionários públicos, as empresas também, havia, um boom de pleno emprego".

Por outro lado, lembra "todos os jovens que entravam para a universidade tinham emprego garantido, fosse a dar aulas ou na administração pública. (...) Há o aparecimento da Universidade da Madeira que hoje é um marco extremamente importante para a região, porque permitiu que muitos jovens que não tinham meios, nem recursos de irem para o continente, passaram a ter o acesso aqui, e também permitiu que a universidade formasse muitos dos quadros que eram necessários".

Voltando à política, a JS ganha um peso muito significativo, ao ponto de ter um número de delegados ao congresso que se tornaria decisivo, a que junta todo o trabalho feito com as bases do PS.

"Eu durante 11 anos dediquei toda a minha vida política, depois das seis da tarde e aos fins de semana, num processo de aumentar a juventude socialista, na altura. Depois, em 2004, já com Jacinto Serrão como líder do partido, é que passo a assumir mais responsabilidades. Já comecei a assumir antes, quando fiz uma candidatura à liderança do partido. Nesses tempos elegia-se delegados e depois no Congresso é que se escolheria o líder. Em 2001, chego ao Congresso do partido, era presidente da JS, com 42,5% dos delegados, e dei esse apoio a outro candidato, que acabou ganhando o Congresso e esse candidato tinha 12%".

Foi a partir deste congresso que Victor Freitas passou a ser visto como alguém que controlava o partido. Discorda.

"Não é verdade, na altura tinha muita influência junto dos militantes do Partido Socialista, mas é uma tarefa que é muito difícil. Foi aquele trabalho de andar de casa em casa. É conhecer a Ilha da Madeira e o Porto Santo por sítio, é conhecer a casa das pessoas, é receber chamadas a qualquer hora da noite, e é andar em contacto com essas, com a realidade que existe, e acho que às vezes falta muito a realidade, às pessoas que estão na política, e esse envolvimento com aquilo que se passa em toda a região, na Madeira e no Porto Santo".

Ao longo destes 50 anos, o PS teve altos e baixos, mas foi também particularmente penalizado nas eleições e nunca chegou ao poder. Victor Freitas tem uam explicação.

“Eu costumo dizer que desde o 25 de Abril há três regiões que não mudaram, Angola, Moçambique e Madeira. Eu recordo que na gênese da construção da democracia tivemos aqui alguns problemas de implantação, tivemos uma FLAMA que atacou só à esquerda, não eram só os comunistas, o Partido Socialista e os seus líderes, Emanuel Jardim Fernandes, Duarte Caldeira e outros, tiveram atentados nos seus carros, e a FLAMA serviu para atemorizar as pessoas. Teve também o papel da igreja, os púlpitos serviram também para a igreja dizer quem é que queria".

Entra para a Assembleia Legislativa em 2004, num período de grandes obras do Governo Regional e de um combate político intenso. Victor Freitas torna-se rapidamente num dos deputados socialistas mais activos e enfrenta uma maioria social-democrata que reconhece esse peso e o coloca como um dos ‘alvos’ principais.

Não foi por isso que diminuiu a intensidade do trabalho político, primeiro apoiando líderes do partido e, mais tarde, assumindo a presidência do PS-Madeira.

Em 2013, o PS, com coligações em que Victor Freitas teve um papel importante, consegue ganhar o Funchal, com Paulo Cafôfo e retirar a maioria das autarquias ao PSD.

"Em 2013 eu era líder do partido, nós tínhamos tido o plano de ajustamento económico-financeiro, havia uma conjuntura propícia para a mudança e na altura tive a responsabilidade de construir estratégias eleitorais, para a Câmara do Funchal, foi uma coligação, apoiámos os Juntos Pelo Povo, que não era um partido e não queria ser partido em Santa Cruz, apoiámos em São Vicente o José António Garcês quando foi candidato como independente e a dizer cobras e lagartos do próprio PSD, o Emanuel Câmara ganhou o Porto Moniz, ganhámos o Porto Santo, ganhámos Machico. De um momento para o outro temos uma Madeira em que há quatro concelhos que ficaram nas mãos do PSD, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta, e os restantes todos na oposição".

Foi talvez o ponto mais próximo de uma mudança?

"Eu julgo que foi, sem dúvida, um momento ímpar que permitiu que existisse, de facto, tanto mudanças de mentalidade na Madeira, mas também mudanças dentro do próprio PSD. Se não existisse 2013, Miguel Albuquerque não era presidente do governo, ou as dificuldades seriam muito maiores para chegar ao poder.  Mas, infelizmente, o que nós notamos é que aquilo que alguns contestaram em Alberto João Jardim ao longo do tempo para chegar ao poder, hoje começam a seguir as mesmas lógica"s.

As perspectivas de uma primeira viragem política na Madeira eram reais mas, em 2015, já com Miguel Albuquerque à frente do PSD, o resultado nas ‘regionais’ da coligação liderada pelos socialistas é desastroso. Hoje, sabendo que sabe, admite que teria feito diferente.

"Em 2015, o erro foi pensar que a estratégia aplicada numa autarquia de unir partidos poderia ajudar a fazer a mudança na região. Já tinham existido alguns problemas com outras forças políticas na própria Câmara do Funchal e eu devia ter interrompido essa estratégia. O que já sentia há algum tempo, depois de 2013, é que as pessoas queriam uma mudança, mas era uma mudança na continuidade".

Victor Freitas afastou-se da liderança mas não do partido e continuou a trabalhar para uma mudança que voltaria a estar perto, quatro anos depois, quando os socialistas, com Cafôfo, ficaram a apenas dois mandatos dos sociais-democratas.

Hoje, Victor Freitas continua no parlamento, numa bancada socialista que já não é a maior da oposição.

Sobre o que considera melhor e pior destes 50 anos de Autonomia é directo: "O pior foi a falta de alternância e o clima que se viveu, pelo menos durante três décadas de cheiro a pólvora, medo e receios e que acho que hoje está ultrapassado. De melhor, a educação e a saúde. A educação abre horizontes, melhora a igualdade de oportunidades e o acesso à saúde é cada vez mais importante. Dois sectores muito importantes".