Alunos deviam passar primeiras semanas de aulas a brincar
O professor catedrático Carlos Neto defende que as crianças deveriam passar as primeiras semanas de aulas a brincar e lamenta o estado dos recreios, defendendo a criação de um Plano Nacional de Reabilitação dos Espaços Escolares.
No dia em que arranca mais um ano letivo e as escolas se preparam para receber 1,6 milhões de crianças e jovens, o especialista em Motricidade Humana defende que "nas primeiras duas ou três semanas deviam estar todos a brincar", para "aprenderem a relacionar-se".
No entanto, a realidade da maioria dos estabelecimentos escolares é muito diferente. Depois das férias, regressa o sedentarismo e o tempo sentado que, para Carlos Neto, é "a maior praga deste século".
"Temos um modelo educacional demasiadamente estruturado, programado, formatado, em que as crianças estão, a maior parte do tempo, sentadas, quietas, obedientes", lamentou o professor na entrevista ao 'podcast' LusaExtra (https://www.lusa.pt/lusaextra), hoje divulgada, defendendo que os métodos atuais "estão fora de moda".
Há já vários estudos que mostram que a atividade física e a brincadeira livre contribuem para melhorar a concentração, a tomada de decisão, a criatividade e a relação com os outros. Por isso, Carlos Neto defende que a escola deve abrir-se mais ao exterior e as aprendizagens têm de sair das quatro paredes da sala de aula.
"Na escola não entra só o cérebro, entra o corpo todo", defende o especialista, argumentando que as aprendizagens são mais eficazes quando envolvem movimento.
No entanto, os recreios continuam a ser "terra de ninguém", espaços "plastificados", com poucos estímulos para o desenvolvimento das crianças, sendo urgente uma remodelação que envolva pais, alunos, professores e instituições.
Carlos Neto pede um "Plano Nacional de Reabilitação dos Espaços Escolares", adaptado às diferentes idades. Enquanto os mais novos beneficiariam de ambientes mais naturalizados, com árvores, terra, areia, pedras e paus, os adolescentes poderiam dispor de equipamentos mais desafiantes, como skateparks ou outras estruturas adequadas à sua idade.
Mas existem outros aspetos que precisam ser mudados na opinião do especialista, que lamenta a cultura de superproteção que existe nos recreios, que chega a ser uma "supervisão patológica".
Defensor de "mais autonomia e mais liberdade não supervisionada", Carlos Neto acredita que o que se vive hoje nas escolas é uma reação ao "medo de as crianças estarem sozinhas, de brincarem sozinhas".
As crianças devem ter mais oportunidades para explorar o espaço exterior, correr riscos moderados e descobrir os seus próprios limites: "Esfolar os joelhos é normal. Andar descalço é normal. Brincar na lama é normal", exemplifica.
O especialista lamenta que ainda estejamos muito longe da realidade de outros países. Por cá, "quando cai um pingo, entra tudo para dentro", lamenta, lembrando o exemplo dos países nórdicos onde as crianças fazem sestas na rua com 10 graus negativos: "É uma forma de o corpo criar resiliência, criar imunidade. Mas nós aqui vivemos do medo, vivemos da proibição. Há que distinguir entre o que é risco e o que é perigo. Nem tudo o que é perigo é risco. Nem tudo o que é risco é perigo".
Para Carlos Neto, o brincar livre tem um papel central no desenvolvimento infantil e deve ser promovido na escola, mas também em casa e nos espaços públicos.
Segundo o professor, a atividade física e a brincadeira livre contribuem para melhorar a concentração, a tomada de decisão, a criatividade e a relação com os outros.
No entanto, "hoje, as crianças portuguesas brincam menos de 40 a 50 minutos por dia. Num estudo recente feito em Inglaterra, as crianças inglesas brincam menos de 24 minutos por dia", alerta o especialista, que diz que "a rua está em vias de extinção".
Num país onde o sedentarismo e a obesidade continuam a aumentar, torna-se ainda mais urgente promover a atividade física.
Na entrevista, o professor jubilado defendeu ainda que brincar é saudável e desejado em todas as idades e não apenas na infância ou na adolescência: "Brincar é, talvez, o melhor instrumento, o remédio para todos os males, o melhor antidepressivo que temos ao nosso alcance".
O especialista acredita que esta postura permite "uma sociedade mais alegre, com mais humor, com mais capacidade de ter positividade na forma de viver".
"Mesmo em situações laborais, em situações de ócio criativo, o brincar deve estar presente. Nós não podemos levar a vida tão a sério. Devemos ter também uma capacidade de viver numa perspetiva lúdica. E viver numa perspetiva lúdica significa que vivemos com um grau de esperança e com um grau de felicidade", explica.
Carlos Neto diz que Portugal tem pela frente "uma epopeia": "Temos um trabalho enorme a fazer para que a população seja ativa e para que tenha saúde mental e saúde física nas gerações que estão agora nas nossas mãos".