Políticos russos querem excluir das eleições único partido que critica guerra na Ucrânia
Políticos russos proeminentes querem excluir das eleições legislativas de setembro o Yabloko, o único partido que critica publicamente a guerra na Ucrânia.
"Bem, não ouvi uma única palavra de condenação ou demonstração de solidariedade do Yabloko para com aqueles que estão a sofrer agora... Não quero que ninguém volte a enganar os eleitores. A sério, não quero", declarou Gennady Zyuganov, o octogenário líder comunista, à agência de notícias RIA Novosti.
Estas críticas surgem pouco depois de a Comissão Eleitoral Central (CEC) ter aprovado as listas do Yabloko, que figuram em segundo lugar, atrás do partido do Kremlin (presidência russa), Rússia Unida.
"Não conheço um único caso em que tenham prestado assistência aos que lá sofrem, aos que lutaram na linha da frente. E se queremos sobreviver, precisamos de vencer lá. Afinal, foi declarada uma guerra de extermínio total contra o mundo russo", sustentou.
De forma semelhante, Serguei Mironov, líder do partido Rússia Justa, que, tal como os comunistas, tem representação na Duma (a câmara baixa do parlamento), instou na quarta-feira o Ministério da Justiça e a Procuradoria-Geral a investigarem a conduta do Yabloko, o único partido de oposição legal na Rússia.
"Não podemos permitir que esse partido utilize a campanha eleitoral para fins antirrussos", escreveu Mironov na plataforma digital Telegram, acrescentando que os membros do Yabloko demonstraram em muitas ocasiões ser, "dissimulada ou abertamente, traidores da pátria".
Acusou também o Yabloko, que defende o fim das hostilidades e o início de negociações de paz com a Ucrânia, de "vender" a Rússia ao Ocidente, apoiar "agentes estrangeiros" e opor-se à chamada "operação militar especial".
"E isto, no quinto ano de guerra, quando os nossos filhos e cidadãos estão a morrer às mãos do regime criminoso de Kiev", sublinhou.
Ambos os políticos têm apoiado obedientemente todas as decisões estratégicas do Presidente russo, Vladimir Putin, ao longo dos anos, incluindo a guerra, o antagonismo ao Ocidente e a perseguição aos direitos fundamentais.
O Yabloko, que adotou como lema de campanha "Pela Paz e Pela Liberdade", apresentou 269 candidatos em listas partidárias e 135 em círculos eleitorais.
Embora tenha recebido a aprovação da CEC, as listas do Yabloko foram rejeitadas pelas comissões eleitorais locais no caso das assembleias municipais de São Petersburgo e da capital da região noroeste da Carélia, onde tem o maior número de apoiantes.
Além disso, várias dezenas dos seus candidatos mais populares, incluindo o seu líder, Nikolai Rybakov, foram excluídas por criticarem a guerra ou por extremismo, por publicarem nas redes sociais imagens do antigo líder da oposição russa, Alexei Navalny, que morreu numa prisão do Ártico em fevereiro de 2024.
As autoridades e outros partidos do sistema temem que o Yabloko aglutine o voto de protesto contra a guerra na Ucrânia, que dois terços dos russos querem que termine o mais rapidamente possível, segundo as sondagens.
A oposição no exílio lançou um debate sobre a necessidade de apelar aos seus apoiantes dentro e fora da Rússia para votarem no Yabloko, partido ao qual Navalny inicialmente pertenceu, mas que abandonou devido a divergências com a liderança.
Alguns ativistas apelam para o boicote das eleições legislativas marcadas para 20 de setembro, por acreditarem que as autoridades vão manipular os resultados, para que o Rússia Unida renove a sua maioria constitucional.
A 10 de julho, o opositor russo e na altura candidato presidencial Boris Nadezhdin foi classificado pelas autoridades russas como "agente estrangeiro", o que o desqualificou para concorrer à Duma, e encontra-se exilado em Paris.
Putin, que aparece na propaganda do partido do Kremlin pela primeira vez desde 2007, lançou a campanha oficial em meados de julho sob o lema "Tudo pela Vitória".
Além de Putin ter sofrido uma queda de quase 20 pontos percentuais nas sondagens nos últimos meses - comparável à registada em 2018, quando aprovou a polémica revisão da lei das pensões -, o partido Rússia Unida atravessa também um dos seus piores momentos.
Segundo fontes independentes, o partido no poder conta com menos de 30% das intenções de voto, devido à má situação económica, aos apagões da Internet e às consequências da guerra na Ucrânia, que nas últimas semanas procedeu a um aumento significativo de ataques com drones contra refinarias, desencadeando uma grave crise de combustível em todo o país, e contra armazéns de comércio eletrónico.