Quando a altura engana…

A ideia de que “construir em altura é sinónimo de progresso” reaparece sempre que surge um novo empreendimento de grande escala. É um reflexo quase automático: quanto mais alto o edifício, maior o símbolo de modernidade. Mas esta associação simplista entre verticalidade e desenvolvimento merece ser questionada — sobretudo quando responsáveis políticos, como Miguel Albuquerque ou Jorge Carvalho, a utilizam para legitimar projetos que alteram profundamente a paisagem urbana.

Nem Oeiras, um dos concelhos mais dinâmicos e bem planeados do país, adotou uma estratégia generalizada de torres com mais de 20 andares. E se um território com forte capacidade económica e tecnológica não segue esse caminho, talvez isso devesse levar-nos a refletir. Crescer não é, necessariamente, crescer para cima. Crescer é planear, equilibrar, integrar e respeitar o território e quem nele vive.

A construção de edifícios de grande altura não é apenas uma questão de estética ou ambição arquitetónica. Implica estudos geotécnicos rigorosos, avaliação das características do solo, soluções de fundação complexas e sistemas estruturais capazes de suportar cargas muito superiores às das construções convencionais. A engenharia moderna consegue responder a estes desafios, mas a capacidade técnica não elimina as consequências urbanísticas, ambientais e sociais que acompanham este tipo de empreendimentos.

O verdadeiro problema surge quando se olha apenas para o edifício e se ignora a cidade que o acolhe. Cada torre habitacional representa mais automóveis, maior consumo de água, mais resíduos, mais pressão sobre saneamento, transportes, centros de saúde, escolas e espaços públicos. Se as infraestruturas não forem dimensionadas para acompanhar este crescimento, a qualidade de vida degrada-se — e o suposto “progresso” transforma-se em sobrecarga.

Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a identidade do lugar. As cidades constroem-se ao longo de décadas, através de uma escala urbana que reflete a sua história, a sua cultura e a forma como as pessoas se relacionam com os espaços. Inserir edifícios de grande altura num tecido predominantemente baixo altera a paisagem, cria sombras permanentes, modifica a circulação do vento, afeta a luminosidade natural e pode transformar radicalmente a vivência do espaço público. Uma cidade não é apenas um conjunto de edifícios; é uma experiência coletiva.

É legítimo querer desenvolvimento. O que não é legítimo é confundir desenvolvimento com densificação descontrolada ou com a ideia de que “mais alto” significa “melhor”. O progresso mede-se pela qualidade do urbanismo, pela eficiência das infraestruturas, pela existência de espaços verdes, pela mobilidade sustentável, pela integração na paisagem e pelo bem-estar das pessoas. Não se mede pelo número de pisos de uma torre.

Antes de aprovar projetos desta dimensão, é essencial perguntar: – capacidade urbana: a cidade está preparada para absorver este acréscimo de densidade? – segurança do solo: o solo comporta uma construção desta escala? – infraestruturas: as redes de água, saneamento, mobilidade e serviços públicos tÊm capacidade para acompanhar o impacto? – benefício real: a população ganha qualidade de vida ou apenas enfrenta mais trânsito, mais pressão e menos espaço público?

As respostas a estas perguntas deveriam pesar mais do que a altura de qualquer torre. Porque uma cidade bem planeada não é a que tenta tocar o céu, mas a que continua a servir — com dignidade, funcionalidade e equilíbrio — quem vive no chão.

José Augusto de Sousa Martins