"Os enfermeiros dão o seu melhor, mas continuam a faltar recursos humanos"
A enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica e dirigente sindical Márcia Ornelas defende que os profissionais de saúde da Madeira continuam a desempenhar as suas funções "com as condições que têm", apesar da pressão crescente sobre o Serviço Regional de Saúde, sublinhando que a principal dificuldade continua a ser a escassez de recursos humanos.
Em entrevista ao programa 'Bola no Ar' da TSF Madeira, com Fernando Rodrigues e Manuel Machado, a profissional, com 22 anos de carreira, admitiu que a enfermagem atravessa "uma fase menos boa", marcada pelo desgaste das equipas, pelo aumento das reclamações e pela falta de compreensão dos utentes e familiares relativamente ao funcionamento dos serviços.
"Em meu nome e em nome dos meus colegas, acho que todos desempenhamos o nosso melhor com as condições que temos", afirmou, acrescentando que muitas críticas resultam do desconhecimento sobre os processos hospitalares e das prioridades clínicas.
Márcia Ornelas, que exerce funções no serviço de Obstetrícia do Hospital Dr. Nélio Mendonça, recordou que a urgência funciona segundo o Sistema de Triagem de Manchester, o que faz com que os tempos de espera dependam da gravidade dos casos.
"Se uma pessoa entra com uma dor de dentes e, entretanto, chega uma vítima de um acidente rodoviário, é evidente que esta última será atendida primeiro", explicou.
A enfermeira alertou ainda para os episódios de agressão verbal e física de que os profissionais são alvo, sobretudo nas urgências, onde a pressão emocional dos familiares é mais evidente. "Há utentes agressivos e familiares que, por vezes, confrontam os profissionais da pior forma", lamentou.
Falta de profissionais continua a ser preocupação
Questionada sobre os principais problemas do sistema de saúde, Márcia Ornelas apontou a insuficiência de profissionais como uma das maiores fragilidades.
"Aquilo que me apercebo é que as equipas deviam ser mais reforçadas. Falta de médicos, falta de enfermeiros, falta de recursos humanos no geral", afirmou.
Apesar disso, mostrou-se otimista quanto ao futuro, considerando que a abertura do novo Hospital Central e Universitário da Madeira e do futuro hospital do Porto Santo permitirão aumentar a capacidade de resposta.
"Acredito que a transição para o novo hospital vai correr bem. Existe uma equipa dedicada a esse processo e penso que será uma melhoria, tanto para os profissionais como para os utentes", referiu.
Embora ainda não tenha visitado a nova infraestrutura, considera que o projeto foi desenvolvido com o objetivo de tornar os serviços mais funcionais e adequados às necessidades actuais.
Sindicalismo "sem cores políticas"
Além da atividade clínica, Márcia Ornelas integra um sindicato nacional de enfermagem desde 2017. O envolvimento surgiu durante um movimento que reivindicava o reconhecimento dos enfermeiros especialistas, que, segundo explicou, exerciam funções diferenciadas sem a correspondente valorização remuneratória.
"Trabalhava como enfermeira especialista, mas era remunerada como enfermeira licenciada. Foi isso que me levou ao sindicalismo", explicou.
A dirigente sindical destacou que a negociação deve prevalecer sobre o conflito laboral, assumindo não ser "muito favorável às greves".
"É preciso sentarmo-nos à mesa, explicar o que está mal e apresentar soluções", afirmou, acrescentando que, na Madeira, tem encontrado abertura por parte do Governo Regional para discutir as reivindicações da classe.
Defende ainda uma maior articulação entre as diferentes estruturas sindicais. "Somos apenas uma classe. Independentemente dos sindicatos que existam, todos devemos procurar as melhores condições para os enfermeiros", argumenta.
Vocação pela enfermagem
Natural da Madeira, Márcia Ornelas fez toda a formação académica em Coimbra. Apesar de ter permanecido um ano no continente após concluir a licenciatura, decidiu regressar à Região em 2005, ano em que ingressou no SESARAM.
"A enfermagem foi sempre a minha escolha. Nunca pensei seguir Medicina. Sempre valorizei a componente humana e relacional da profissão", afirmou.
Actualmente, além da especialidade em Saúde Materna e Obstétrica, concluiu um mestrado na área da Gestão, admitindo que pretende continuar a investir na formação.
Ao longo da entrevista, destacou também a importância das equipas multidisciplinares, lembrando que o funcionamento dos serviços de saúde depende do trabalho conjunto de médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros e restantes profissionais.
"Cada um tem a sua importância e trabalhamos todos em prol do utente", concluiu.