Construir em altura não pode significar perder a alma da Madeira!

A crise da habitação na Madeira é uma realidade que já ninguém consegue ignorar. Cada vez mais famílias têm dificuldade em comprar casa, os jovens veem o sonho da independência adiado e muitos trabalhadores são obrigados a suportar rendas incomportáveis. Perante este cenário, é natural que se procurem soluções diferentes e mais ambiciosas. No entanto, qualquer solução deve ser pensada com responsabilidade e visão de futuro.

A possibilidade de construir edifícios com 20 ou mais andares não deve ser rejeitada apenas por serem altos. Em determinadas zonas, devidamente estudadas e preparadas, construir em altura pode permitir aumentar significativamente a oferta de habitação sem continuar a ocupar cada vez mais terreno. Numa ilha com espaço limitado, esta pode ser uma alternativa mais equilibrada do que expandir a urbanização de forma descontrolada.

Mas existe uma condição que não pode ser ignorada: a Madeira não pode perder a sua identidade. A paisagem que nos rodeia não é apenas um elemento estético; faz parte da nossa história, da nossa cultura e daquilo que torna a ilha única no mundo. Um crescimento sem planeamento, sem critérios e sem respeito pelo território pode trazer consequências irreversíveis.

Por isso, se estes projetos avançarem, devem existir regras claras, estudos rigorosos e uma preocupação genuína com a integração dos edifícios na cidade e na paisagem. Não podemos permitir que a necessidade de construir rapidamente se transforme numa descaracterização da ilha.

Da mesma forma, é essencial garantir que estas novas habitações cumpram o propósito para o qual são apresentadas. Se o objetivo é combater a crise habitacional, então as casas devem servir, em primeiro lugar, quem vive e trabalha na Madeira. Construir mais só fará sentido se isso resultar em preços mais acessíveis e em melhores condições de vida para os madeirenses.

O verdadeiro desafio não é decidir se os prédios devem ter cinco, dez ou vinte andares. O verdadeiro desafio é encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação. A Madeira precisa de crescer, mas precisa, acima de tudo, de continuar a ser Madeira.

Bruno Silva