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Madeira

Há políticos que “nunca hão-de fazer nada e nunca hão-de ficar na história. É preciso decidir”

O presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, partilha como foi traçando o seu caminho, no mais recente episódio do ‘podcast’ ‘E Se Corre Bem?’, do ECO

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O presidente do Governo Regional da Madeira é o 81.º convidado do podcast ‘E Se Corre Bem?’, do ECO, e ao longo da conversa com Diogo Agostinho, COO do ECO, deixa claro que a sua ‘bússola’ sempre apontou noutra direcção, a da clareza e da coragem, dois valores que aprendeu ainda em criança, dentro de casa.

Durante o ‘podcast’, Albuquerque lembra que foi o avô quem moldou grande parte da sua visão sobre a vida pública. Era um homem da oposição que participou directamente num dos episódios mais turbulentos da história da ilha: “Eu sempre tive a política em casa porque o meu avô, com quem fui criado, era um homem da oposição e foi um dos líderes da primeira revolta da Madeira, em 1931. Quando se deu 25 de Abril, eu já tinha uma percepção da realidade política porque falávamos dela. E, obviamente, eu inspirei-me em muitas das conversas que surgiam lá em casa”. Não era apenas política de mesa de jantar, era uma formação acelerada em resistência, princípios e consequências.

Ainda assim, quando chegou o momento de escolher uma profissão, Albuquerque diz ter optado pela independência. Quis ter os pés no chão antes de os colocar nos corredores do poder. Abriu o seu primeiro escritório de advocacia aos 23 anos e o negócio prosperou rapidamente: “Foi um escritório de grande sucesso e só o abandonei quando fui para o exercício de vice-presidente da Câmara [do Funchal], em 1994. Na altura, tinha 400 e tal processos a decorrer ao mesmo tempo e, para além disso, era administrador de um conjunto de empresas familiares. Era incompatível”. A transição para a política foi uma escolha deliberada, feita com plena consciência do que ficava para trás.

A passagem de vice-presidente a presidente da Câmara Municipal do Funchal aconteceu mais depressa do que o previsto, impulsionada por um conflito interno que culminou na saída de Virgílio Pereira no Verão de 1994. Albuquerque assumiu o cargo e ficou nele durante 19 anos consecutivos, período em que imprimiu uma transformação profunda no município. “Nós fizemos muita coisa no Funchal. Os nossos mandatos marcaram uma modernização efectiva e ainda hoje as pessoas falam. Já na altura tomávamos decisões contra quem fosse”, recorda no ‘podcast’.

O fio condutor dessa modernização foi o crescimento económico. Albuquerque acredita que sem prosperidade material não há política social que funcione, e os números que apresenta sustentam essa convicção: “Nós éramos a região mais pobre, mas tínhamos de dar o salto porque só com crescimento económico é que se consegue pagar melhores salários, erradicar a pobreza e diminuir as desigualdades. E o que nós conseguimos foi, em dez anos, duplicar o PIB da Madeira, passámos de mais de quatro mil milhões de euros para mais de 8 mil milhões. Temos os impostos baixos, o PIB está 107 pontos acima da média nacional, e a dívida está a 60% do PIB porque nós a amortizamos. Só com contas públicas directas é que se pode ter uma economia consistente”.

Para chegar aqui foi preciso, diz ele, ouvir o avô. Não literalmente, mas os ensinamentos ficaram gravados: “O meu avô dizia-me sempre que a parte mais importante de um político não é a inteligência, mas duas coisas: coragem e clareza. Não há política sem clareza. A clareza é fundamental para se perceber o caminho que se quer seguir e, depois, é preciso ter a coragem de seguir em frente e aguentar o barco”. São palavras que poderiam soar a cliché noutros contextos, mas ganham peso diferente quando vêm de alguém que, em 2014, decidiu concorrer à presidência do PSD-M, sem apoios garantidos, contra quem fosse preciso. E ganhou. E depois ganhou as Regionais de 2015. E não se arrepende da forma como o fez. A popularidade, afirma, é uma armadilha que paralisa quem governa: “Há políticos que querem ser amados e eu tenho pena deles. Querem ser amados por todos, à esquerda e à direita, querem ser politicamente correctos. Mas eles nunca hão de fazer nada e nunca hão de ficar na história. É preciso decidir”.

Na prática, decidir significou apostar numa Zona Franca que hoje representa uma fatia relevante da economia regional: “Nós aqui estamos na linha da frente. Neste momento temos mais de 400 empresas, que facturam aqui cerca de 700 milhões de euros. Fomos reduzindo o IRC, está em 13,3%, e, neste momento, o IRS está com 30% diferencial até ao 9.º escalão. Por conseguinte, estamos com um conjunto de empresas de ponta, onde fixamos os jovens entre os 22 e os 27 anos. Isto porque também temos aqui a robótica e até vamos construir uma fábrica para que as peças sejam montadas e fabricadas cá. Estas empresas são as que trazem maior valor acrescentado, que podem fixar os nossos jovens, e que levam à diversificação da nossa economia”.

A diversificação passa também pela reinvenção dos sectores tradicionais. O exemplo das carpintarias diz muito sobre a filosofia que tem guiado as políticas de educação e formação na ilha: “Aqui as carpintarias são de ponta. Já não têm carpinteiros, mas têm os jovens a fazer impressão 4D e 5D. Desde 2015, adoptámos o modelo de educação de Singapura, que faz com que todas as escolas públicas que têm matemáticas aplicadas desenvolvam programação robótica, impressão 4D e, agora, Inteligência Artificial. A verdade é que não vamos ter gente para trabalhar em áreas não qualificadas, portanto temos de desenvolver algumas áreas e atrair empresas para cá”.

Salienta que os sinais de que a estratégia funciona estão também na balança comercial, que fecha positiva há sete anos consecutivos. O último registo apontava para um excedente de 138 milhões de euros. Lembra que o horizonte imediato prevê mais dois campos de golfe para posicionar a Madeira como destino de referência nessa modalidade, e um processo mais amplo de valorização da oferta turística. O objectivo não é crescer em volume, mas em qualidade: “Isto significa que estamos a melhorar tudo o que é produto e serviço, a oferta de restauração, de hotelaria, de circuito, de visita. Sobe a qualidade e sobre o preço. Nós não somos um turismo massificado, somos um turismo de nicho, mas interessa que o produto ou o serviço que é prestado tenha alta qualidade para ser remunerado convenientemente”.

Miguel Albuquerque: “Há políticos que querem ser amados e eu tenho pena deles”

Cresceu a ver o seu avô liderar a oposição e a primeira revolta da Madeira. Hoje, é Miguel Albuquerque quem lidera o Governo Regional da Madeira e partilha como foi traçando o seu caminho.

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