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História escrita pelos vencedores

A História chega-nos normalmente contada a partir dos lugares onde o poder se sentou e deixou registos. Foram esses lugares que produziram arquivos, decretos, relatórios, atas e documentos.

Foram esses lugares que tiveram condições para preservar a sua memória.

Mas a vida nunca aconteceu apenas aí.

Enquanto os governantes decidiam, milhões de pessoas trabalhavam, migravam, resistiam, sobreviviam. Camponeses, operários, colonizados, mulheres excluídas dos espaços de decisão, habitantes das ultraperiferias. Gente silenciada pela História, mas que a viveu todos os dias.

Talvez por isso uma das tarefas mais fascinantes dos historiadores contemporâneos tenha sido a tentativa de ouvir essas vozes quase apagadas pelo tempo. Não porque fossem moralmente superiores, mas porque a sociedade vista a partir de baixo revela coisas que os centros de poder não captam.

Foi essa inquietação que levou historiadores como E. P. Thompson a recuperar a experiência dos trabalhadores esquecidos e pensadores como Frantz Fanon a dar centralidade aos chamados «condenados da terra». A grande novidade não estava apenas em estudar os excluídos - esses, já apareciam como gente governada, explorada, administrada, evangelizada, civilizada ou mobilizada por outros -, estava em reconhecer que eles também tinham algo a dizer sobre a forma como as sociedades se organizam. Porque uma comunidade não revela a sua história apenas através das vozes dos poderosos, pelos monumentos que ergue aos vencedores, pelos nomes atribuídos às ruas, às escolas e hospitais.

A grande lição de E. P. Thompson continua atual. Ao dignificar a história dos trabalhadores ingleses, mostrou que não eram figuras secundárias nem multidões passivas. Eram sujeitos que pensavam, resistiam, organizavam-se. Em suma, faziam história. Significava reconhecer que eles não sofriam a História, mas a faziam. Os sujeitos populares não eram meros recetores passivos das forças económicas ou políticas. Construíam redes de solidariedade, negociavam, adaptavam-se e, por vezes, transformavam as estruturas que os oprimiam.

Talvez seja essa a principal questão do nosso tempo. Não basta incluir as ultraperiferias nas narrativas históricas como quem acrescenta uma nota de rodapé. É necessário reconhecer que a compreensão dos acontecimentos fica mutilada quando não interpretada a partir daqueles que suportaram o peso das desigualdades.

É por isso que a Galeria Anjos Teixeira programou para os “50 Anos da Autonomia” dar voz a formas de memória social, a rastros e vozes interrompidas, lendas e lutas, costumes e vestígios dispersos, a práticas culturais, que sobrevivem, nos territórios ultraperiféricos.