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Crónicas

À espera no aeroporto

Lá, no Laranjal, a minha mãe, o meu pai e as minhas tias iam gostar daquilo que jazia aos meus pés enquanto esperava pelo avião

1990 foi um ano especial, pelo menos para mim, a estudante universitária que o meu tio Humberto foi buscar ao aeroporto nos últimos dias de Julho. Lembro-me que fiz a viagem no último avião a ligar Lisboa à Madeira. Não havia lojas, nem cafés abertos e eu sentei-me o mais perto da porta de embarque, rodeada de sacos que, por essa altura, as pessoas enchiam as bagageiras com o que não cabia na mala de porão. E eu não tinha conseguido enfiar entre a minha roupa, sapatos e livros, tudo o que desencantara em lojas baratas e levava para casa para oferecer.

Lá, no Laranjal, a minha mãe, o meu pai e as minhas tias iam gostar daquilo que jazia aos meus pés enquanto esperava pelo avião. Uma parte de mim queria agradecer; a outra queria celebrar e, nos poucos dias depois dos exames e antes da viagem de regresso, procurei camisas, t-shirts, blusas e fiz contas para dar para todos. A Marta que chegava podia não ser já a mesma, mas continuava a ter naquelas pessoas o refúgio, o lugar para onde voltar. Mais umas horas e estaria no meu quarto, rodeada de carinho e isso merecia todo o dinheiro gasto.

Lisboa não tinha sido simples. Não que tivesse pensado em como seria viver numa cidade grande, não se consegue imaginar muito quando se vive sempre no mesmo sítio, com as mesmas pessoas durante 18 anos sem nunca ter ido de férias ao Porto Santo ou Canárias. Talvez por isso aterrar num sítio onde tudo era diferente, do desenho das ruas ao tamanho dos prédios, me tenha baralhado mais do que esperava. Ou melhor, aturdiu tanto e ainda mais no momento em que todas pessoas importantes passaram a ser vozes do outro lado da linha nos telefonemas apressados nas cabines telefónicas.

O anfiteatro e o pátio da faculdade estavam cheios de outros universitários e alguns tornaram-se meus amigos (alguns até hoje), mas a amizade é um caminho, faz-se de circunstâncias e oportunidades. E eu era tímida, estranha, vinha de longe, estava confusa e não partilhava sequer a mesma origem social. O professor de Sociologia tinha declarado, logo nas primeiras aulas, que os filhos dos operários não iam para a universidade, iam trabalhar para alimentar a família. E nessas famílias não havia dinheiro para financiar estudos ou vagar para dar aos filhos mais do que comida.

Ninguém contestou, não havia filhos de operários ou, se havia, fizeram como eu e ficaram calados. Eu era filha de um operário, mestre pedreiro que, todos os dias da semana (e às vezes aos sábados e feriados) subia para a parte da frente de uma furgoneta e ia trabalhar nas obras. Lia mal e só sabia assinar o nome, mas não era o homem que o professor descrevia: um pai que queria os filhos a trabalhar para alimentar a casa e que desmerecia dos estudos. O mestre Gabriel podia ser analfabeto, mas apreciava quem sabia e tinha agora dois propósitos na vida: acabar de construir a casa e dar-me um curso.

Eu era filha de um operário e neta de agricultores e a primeira vez que tinha entrado num avião fora uns meses antes, pois era verdade que vivíamos sem luxos, sem férias e extravagâncias. Só que isso era uma coisa, outra coisa era aquela visão de falta de carinho, de planos ou a incapacidade para se encantar com os pequenos nadas. O meu pai também não era essa pessoa, era o homem que me dava o braço no caminho de casa e me dizia para olhar para o céu e ver as estrelas.

O mesmo homem de meia idade que estava no aeroporto, ao lado do meu tio Humberto e da minha mãe, e que só me queria dar um abraço por ter passado nos exames.