Roubaram-nos tempo

Já se passou um mês desde que perdemos o meu avô. Que a minha mãe e os seus irmãos perderam um pai. E que a minha avó perdeu o seu marido e companheiro de uma vida inteira.

Passado um mês, consigo escrever sobre a situação com mais coragem e com um pouco menos de angústia. Portanto, venho por este meio expôr uma situação de profunda desumanidade decorrida no Hospital Dr. Nélio Mendonça, que afetou gravemente os últimos dias de vida do meu avô e causou um sofrimento irreparável à nossa família.

Antes de continuar, quero deixar claro que este testemunho não é um ataque aos cuidados médicos e de enfermagem que o meu avô recebeu. No entanto, talvez por ser profissional de saúde em Inglaterra e conhecer uma realidade e um sistema diferentes, sinto o dever de partilhar o que a minha família viveu. Faço-o na esperança de que esta falha profunda no sistema seja reparada, para que nenhuma outra família tenha de passar pelo mesmo.

No dia 26 de abril, o meu avô foi aerotransportado de urgência, intubado, da ilha do Porto Santo para o Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal. Ficou ao cuidado dos cuidados intensivos na Sala de Observação (SO), uma vez que fomos informados de que não havia vagas na unidade de cuidados intensivos. O seu prognóstico era muito reservado devido a complicações por falência cardíaca.

​Fomos também informados de que as próximas 24 horas não eram garantidas e que, mesmo que houvesse alguma recuperação, ele nunca recuperaria o seu nível de independência e autonomia. Eu e o meu tio, que vivemos em Inglaterra, não hesitámos e marcámos a primeira viagem disponível de Londres para o Funchal. Poucas horas depois, aterrámos na Madeira e seguimos diretos para o hospital.​O meu avô tinha 95 anos, mas era um senhor que sempre se manteve extremamente independente e autónomo, até ao dia em que precisou de assistência médica.

​Infelizmente, o meu avô veio a falecer no dia 2 de Maio. Este desfecho era o mais provável e esperado por todos, tanto pela equipa médica como pela família, considerando a enorme fragilidade do seu quadro clínico.

​Apesar de estarmos imensamente gratos pelos cuidados prestados ao meu avô pelas equipas médica e de enfermagem em geral, carregaremos connosco para sempre a mágoa de termos sido roubados do tempo com o meu avô pelo próprio hospital. A restrição do horário de visitas na Sala de Observação experienciada foi simplesmente desumana.

Ali, os familiares não têm direito a mais do que duas visitas de 30 minutos por dia, nas quais apenas pode entrar uma pessoa de cada vez. As famílias e os doentes, especialmente aqueles em fim de vida, merecem mais do que cinco minutos diários com cada familiar.

Nós não éramos os únicos familiares naquela situação. Nos breves momentos de espera, enquanto trocava de lugar com a minha mãe ou com o meu tio para podermos ter os nossos 5 a 10 minutos individuais com o meu avô, partilhámos a dor de outros familiares sujeitos à mesma regra. O sofrimento era unânime, e a opinião também: a restrição daquele tempo de visita era um ato de profunda desumanidade.

Compreende-se que, em situações de isolamento por doenças infeciosas, existam restrições. Mas não era o caso. O meu avô estava em fim de vida.

Apenas em duas ocasiões permitiram que entrássemos juntos para podermos usufruir dos 30 minutos totais, ou uns minutos mais, com o meu avô: a primeira vez, quando o meu avô já se encontrava inconsciente de si, com aquela respiração que anuncia o fim. A segunda, foi para abraçar o corpo do meu avô, já sem vida, após o telefonema que ditou: “Infelizmente, o Sr. José veio a falecer às quatro”.

O que torna tudo ainda mais doloroso é que o meu avô teve um período de aproximadamente 36 horas de lucidez após a extubação. Ele sabia quem era, onde estava e quem o rodeava. Podíamos ter tido a oportunidade de o confortar mais, de lhe segurar a mão por mais tempo, ou simplesmente de estar ali, em silêncio, ao seu lado. Sem a angústia de olhar para o relógio a contar os minutos que já tinham passado antes de termos de dar lugar ao próximo membro da família.

Ficaram palavras por dizer, despedidas por fazer, abraços por sentir. Ficou tanto. O meu avô faz-nos uma falta imensa.

O meu avô não pôde morrer na sua terra natal, e nem a ele nem a nós nos foi permitido estar juntos sem ter de olhar, com angústia profunda, para o relógio no pulso.

O crime aqui perpetuado foi terem nos roubado tempo.

Para o meu avô, infelizmente, já é tarde. Mas fica aqui o apelo para que a empatia passe a ser a prioridade do sistema nesta instituição, de modo a que mais famílias não passem pela mesma experiência dolorosa. Que permitam a quem está a morrer o direito ao tempo com os seus familiares e a um adeus digno, e que esse tempo nao seja única e exclusivamente ditado pela zona de internamento.”

Alexandra Saldanha