DNOTICIAS.PT
None
Explicador Madeira

Saiba porque falham as previsões do tempo

“A meteorologia enganou-se outra vez.” Esta é uma das frases mais comuns, quando se fala do tempo. É dita quando a chuva prometida não cai, quando o vento afinal não chega, quando o sol aparece no dia em que a aplicação do telemóvel mostrava nuvens. Mas a previsão do tempo não é um palpite. É uma tentativa científica de antecipar o comportamento de uma coisa muito difícil de domesticar, a atmosfera.

Hoje, as previsões são feitas a partir de observações recolhidas por satélites, estações meteorológicas, radares, navios, aviões, bóias oceânicas e outros sistemas. Esses dados alimentam modelos numéricos, isto é, programas que simulam a evolução provável da atmosfera. Em Portugal, o IPMA explica que as previsões automáticas por localidade resultam do processamento estatístico de modelos numéricos e são actualizadas duas vezes por dia. Noutra página, o próprio instituto avisa que há “incerteza acrescida” na previsão de eventos extremos, em especial de precipitação e vento (IPMA, “Previsão 10 dias, horária diária, localidade”; IPMA, “Cartas meteorológicas”).

A palavra decisiva nestas questões é mesmo essa: incerteza. A atmosfera é um sistema caótico. Isto não quer dizer que seja desordenada ou impossível de estudar; quer dizer que pequenas diferenças nas condições iniciais podem alterar bastante o resultado final. Uma frente que se desloca algumas dezenas de quilómetros mais para norte, uma mudança ligeira na direcção do vento ou uma bolsa de ar húmido que chega mais cedo do que o previsto podem ser suficientes para transformar uma previsão acertada numa previsão que, para o leitor comum, parece falhada.

É por isso que a previsão para amanhã é quase sempre mais fiável do que a previsão para daqui a uma semana. À medida que se aumenta o prazo, aumenta também a margem de erro. Ainda assim, as previsões melhoraram muito. A NOAA, agência norte-americana ligada à observação oceânica e atmosférica, explica que uma previsão a cinco dias tem hoje elevada fiabilidade e que a previsão a sete dias já dá uma indicação útil do tempo esperado (NOAA/NESDIS, “How Reliable Are Weather Forecasts?”, 2025). O problema é que o público não avalia previsões por médias estatísticas. Avalia-as pelo dia em que ia estender roupa, fazer uma caminhada ou apanhar um avião.

Na Madeira, essa dificuldade é maior. A ilha é pequena no mapa, mas enorme do ponto de vista meteorológico. O relevo interfere com o vento, força o ar húmido a subir, favorece nuvens e chuva nas zonas montanhosas e pode criar contrastes bruscos entre freguesias próximas. Pode chover com força no Areeiro ou no Chão da Lagoa e estar muito menos mau no centro do Funchal. Pode haver vento forte nas zonas altas e apenas vento moderado junto ao mar. Para quem olha pela janela, a previsão ‘falhou’. Para quem olha para a ilha inteira, talvez tenha acertado apenas no sítio errado para a pessoa errada.

O caso da aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 mostra bem o limite das previsões em fenómenos extremos. O boletim climatológico do então Instituto de Meteorologia registou nesse dia 144,3 mm de precipitação no Funchal entre as 00 hotas e as 24 horas, e explicou que o arquipélago foi afectado por uma depressão muito cavada, associada a nuvens de grande desenvolvimento vertical e a precipitação muito forte e intensa. O mesmo boletim refere que Fevereiro de 2010 foi excepcional: no Funchal, a precipitação mensal chegou a 458,7 mm, cerca de sete vezes acima do valor médio e o valor mais elevado desde 1865 (Instituto de Meteorologia/IPMA, “Boletim Climatológico Mensal da Madeira – Fevereiro 2010”). Aqui, mais do que dizer simplesmente que a previsão “acertou” ou “falhou”, é preciso ser rigoroso: a situação meteorológica adversa foi identificada, mas a violência concreta do fenómeno, os efeitos nas ribeiras, os deslizamentos e a concentração brutal da chuva em zonas críticas ultrapassaram aquilo que a população estava preparada para enfrentar. Foi um caso em que prever chuva forte não significou conseguir antecipar, com utilidade social suficiente, a dimensão da catástrofe.

Já a depressão Óscar, em Junho de 2023, é um exemplo diferente. Neste caso, a previsão acertou de forma clara no essencial. O IPMA emitiu aviso vermelho para a costa sul e regiões montanhosas da Madeira com grande antecedência, devido à previsão de chuva forte e persistente. O DIÁRIO noticiou na altura que o aviso vermelho foi emitido 37 horas antes de entrar em vigor e que se manteria durante 24 horas, algo invulgar na Região (dnoticias.pt, 05 de Junho de 2023). Depois, o próprio IPMA confirmou que, com a passagem da depressão Óscar, foi atingido um novo extremo absoluto de precipitação em Portugal: 497,5 mm no período das 09h às 09h UTC, com chuva forte e persistente, trovoada, visibilidade reduzida e rajadas da ordem dos 100 km/h nas terras altas (IPMA, “Novo Extremo de Precipitação”, 2023). A Protecção Civil da Madeira registou 163 ocorrências, incluindo desabamentos de terras, queda de árvores e inundações (Serviço Regional de Protecção Civil da Madeira, 7 de Junho de 2023). Aqui, portanto, a previsão não falhou: antecipou o perigo, permitiu avisos e confirmou-se no terreno.

A tempestade Theta, em Novembro de 2020, mostra outro tipo de situação: a previsão foi sendo ajustada. Primeiro houve receio de impacto mais forte; depois, à medida que a tempestade evoluiu, a previsão foi moderada. O DIÁRIO escreveu, a 15 de Novembro, que a passagem da Theta “não deverá ser tão forte como inicialmente se previa”, mas que deixaria chuva e vento. A previsão apontava para períodos de chuva ou aguaceiros, por vezes fortes e acompanhados de trovoada, vento com rajadas até 70 km/h no Funchal e até 90 km/h nas terras altas (DIÁRIO, 16 e 27 de Novembro de 2020). No balanço, não se tratou propriamente de uma falha, mas de uma correcção progressiva: a trajectória e intensidade do sistema mudaram e a previsão acompanhou essa mudança. Para o leitor, isto pode parecer hesitação; na prática meteorológica, é precisamente o sistema a funcionar.

Há também casos em que o aviso parece exagerado porque o pior não acontece. Em Novembro de 2024, a Madeira esteve sob aviso laranja durante 12 horas devido à previsão de aguaceiros fortes, granizo e trovoada. O DIÁRIO foi verificar os registos preliminares das estações do IPMA e concluiu que nenhuma estação acumulou valores sequer compatíveis com aviso amarelo, quanto mais laranja. Confirmou-se chuva e trovoada, mas não a precipitação intensa que justificaria o nível do aviso (dnoticias.pt, “Choveu que parecia o 20 de Fevereiro?”, 16 de Novembro de 2024). Este é um exemplo bastante concreto de previsão sobrestimada. Mas também é um bom exemplo do dilema dos serviços meteorológicos: perante condições favoráveis a aguaceiros fortes, sobretudo em ilhas montanhosas, é mais prudente avisar e depois chover menos do que não avisar e o fenómeno concentrar-se numa ribeira ou numa encosta.

As poeiras do Saara são um caso diferente, porque muitas vezes são bem antecipadas. Em Janeiro de 2024, por exemplo, a Meteored/Tempo.pt indicou concentrações elevadas de poeiras sobre a Madeira, com degradação da qualidade do ar e céu esbranquiçado ou amarelado. A situação estava a ocorrer nesse domingo, 28 de Janeiro, e a previsão apontava para dissipação ao longo do dia, com novo episódio possível a partir de 31 de Janeiro (Tempo.pt, 28 de Janeiro de 2024). Neste caso, a previsão foi confirmada pelo próprio fenómeno observável: o céu mudou, a qualidade do ar degradou-se e o episódio tinha correspondência com os modelos de transporte de partículas. Não foi uma falha; foi um exemplo de previsão útil.

O calor extremo nas zonas montanhosas da Madeira, em Agosto de 2023, também mostra uma previsão que teve consequência prática. O IPMA colocou as regiões montanhosas sob aviso vermelho devido à persistência de temperaturas máximas elevadas e humidade relativa muito baixa. O aviso entrou em vigor a 11 de Agosto e manteve-se até ao dia seguinte, passando depois a laranja (DIÁRIO/Lusa, 11 de Agosto de 2023). A decisão levou a medidas preventivas, incluindo o reforço da vigilância nas serras e o encerramento da estrada florestal entre a Eira do Serrado e o Pico do Areeiro enquanto vigorasse o alerta vermelho (dnoticias.pt, 12 de Agosto de 2023). Aqui, a questão não é saber se alguém no Funchal sentiu mais ou menos calor. O aviso era específico para zonas montanhosas e risco extremo associado a calor, secura e incêndio. Foi uma previsão orientada para o risco, não apenas para a sensação térmica de quem estava junto ao mar.

No fundo, muitas críticas à meteorologia nascem de um mal-entendido. Uma previsão não diz: ‘vai chover exactamente à sua porta às 15h17’. Diz, em linguagem técnica ou simplificada, que há condições favoráveis a determinado fenómeno numa área e num período. Quando se fala em ‘probabilidade de precipitação’, isso não significa que vai chover durante essa percentagem do dia, nem que vai chover em toda a ilha. Significa que, dadas as condições conhecidas, há uma determinada probabilidade de ocorrer precipitação naquela zona de previsão. E, quando há avisos, o objectivo já não é apenas dizer se chove ou não chove: é antecipar risco.

Por isso, as previsões falham por várias razões. Falham porque a atmosfera é instável. Falham porque os modelos têm resolução limitada e não conseguem representar todos os detalhes de uma ilha montanhosa. Falham porque fenómenos convectivos, como aguaceiros fortes e trovoadas, podem formar-se e descarregar de forma muito localizada. Falham porque a previsão evolui, mas muitas pessoas ficam com a primeira versão que viram no telemóvel. E falham também porque o público espera certezas de uma ciência que trabalha com probabilidades.

Mas há uma coisa algo irpnica: quanto mais as previsões melhoram, menos toleramos os seus erros. Hoje queremos saber o tempo por hora, por freguesia, por trilho, por praia e por aplicação. Queremos a meteorologia à escala da nossa agenda. A ciência aproximou-se muito disso, mas ainda não chegou ao ponto de eliminar a incerteza. Na Madeira, onde o relevo decide tantas vezes o estado do tempo, essa incerteza continuará a fazer parte da previsão.

Talvez a pergunta a colocar não seja “porque falham as previsões?”, mas “que tipo de certeza esperamos delas?”. Para decidir se levo guarda-chuva, uma previsão aproximada chega. Para proteger uma população de chuva extrema, derrocadas, incêndios ou vento forte, é preferível uma previsão prudente, mesmo que depois pareça exagerada. Entre falhar por excesso de aviso e falhar por silêncio, a meteorologia moderna tende a escolher o primeiro risco. E, numa ilha como a Madeira, essa escolha pode fazer toda a diferença.