Agências de viagens temem impacto de crise nos aeroportos em mercados não Schengen
As agências de viagens temem que as filas demoradas nos aeroportos tenham impacto nos mercados fora do espaço Schengen, apontando danos reputacionais e a necessidade de confiança, disseram à Lusa os presidentes da APAVT e ANAV.
Em respostas por escrito, Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT - Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo disse que "teme que a persistência de filas nos aeroportos portugueses afete sobretudo os mercados não Schengen, que são estratégicos para Portugal".
Para o dirigente, "o impacto pode não surgir de imediato em cancelamentos, mas surge em dano reputacional, perda de confiança e degradação da experiência turística".
Miguel Quintas, presidente da ANAV - Associação Nacional de Agências de Viagens lembrou, por sua vez, que o "turismo vive de confiança, previsibilidade e facilidade de circulação".
"Quando um passageiro dos Estados Unidos, Reino Unido, Brasil, Canadá ou outros mercados não Schengen chega a Portugal e enfrenta filas de horas, a primeira experiência que tem do país é negativa", destacou, apontando que "isso afeta a imagem do destino, cria insegurança nas reservas futuras e pode levar alguns turistas a escolherem destinos concorrentes com processos de entrada mais fluidos".
Para Miguel Quintas, "Portugal não pode dar sinais de desorganização precisamente nos mercados de maior valor acrescentado e maior despesa média".
Questionados sobre as declarações da União Europeia, que rejeita que o problema esteja relacionado com o novo Sistema de Entrada/Saída (EES), Pedro Costa Ferreira e Miguel Quintas aceitam, mas deixam alertas.
"Isso obriga Portugal a olhar para os seus próprios problemas de preparação, meios, tecnologia e gestão operacional. O sistema europeu pode acrescentar complexidade, mas era conhecido e devia ter sido preparado", disse o presidente da APAVT.
Para Miguel Quintas, a experiência no terreno aponta para a falta de "meios humanos", bem como para "sistemas tecnológicos deficientes, 'hardware' que não funciona, incapacidade das instalações aeroportuárias, falta de indicações no local de desembarque, número de máquinas insuficientes, comunicações de 'internet' deficientes, entre uma série de outras vicissitudes".
Por outro lado, ressalvou, "uma coisa é dizer que o sistema europeu, em si, funciona, outra é dizer que a sua implementação operacional, em aeroportos concretos e em horas de pico, não está a gerar constrangimentos".
"Se cada novo registo demora 'pouco mais de um minuto', como diz Bruxelas, isso pode parecer pouco em abstrato, mas multiplicado por milhares de passageiros em períodos concentrados, num aeroporto já saturado, torna-se um problema real", destacou.
Quanto ao papel da ANA - Aeroportos de Portugal na gestão desta questão, Pedro Costa Ferreira acredita que "deve ser parte ativa da solução", salientando que "o controlo de fronteiras não depende apenas da concessionária, mas a experiência aeroportuária é vista pelo passageiro como um todo. Para quem chega, a responsabilidade é de Portugal", assegurou.
O presidente da ANAV lembrou, por seu turno, que "o controlo de fronteira é uma função soberana do Estado, não da ANA", mas, realçou, isso não significa que a concessionária "esteja fora da equação".
"A atuação da ANA tem de ser mais preventiva e menos reativa, embora tenha feito esforços de solucionar os problemas já há bastante tempo", indicou, apelando para "mais transparência sobre investimentos, prazos, capacidade instalada e medidas concretas antes do verão".
A APAVT garantiu, por sua vez, que "tem mantido diálogo institucional com o Governo", mas o presidente da associação disse que "o setor precisa de resultados concretos", que passam pelo "reforço de meios, melhor coordenação operacional, comunicação clara ao passageiro e um plano urgente para que os aeroportos deixem de comprometer a competitividade do turismo nacional".
A ANAV assegurou que "tem vindo a alertar há mais de um ano" para a "necessidade de soluções urgentes nos aeroportos portugueses, porque este problema não apareceu de um dia para o outro", garantindo que tem "mantido contactos institucionais" e continua disponível para colaborar com o Governo.
Miguel Quintas defende que as medidas anunciadas são "insuficientes".
"Enquanto houver passageiros a perder voos, famílias em filas prolongadas e operadores a gerir reclamações por falhas que não controlam, o problema não está resolvido", rematou.