O adversário invisível
O maior adversário de um atleta raramente está do outro lado
“Parabéns, que prestação brilhante! Que alegria contagiante! Que inspiração!”
Foi uma das frases que mais ouvi no fim de semana passado, no Miami Pro, dirigida ao meu marido. E fiquei a pensar numa coisa. Temos atletas portugueses que mostram que competir não é apenas vencer, é saber permanecer humildes, íntegros e humanos, mesmo em competição. Atletas que carregam uma energia rara.
É muito bonito ver a forma como conseguem continuar motivados, focados e emocionalmente disponíveis para competir, mesmo quando tudo à volta parece empurrá-los para desistir.
É impossível conviver de perto com um atleta de alto rendimento e não perceber uma coisa: compete porque ama profundamente aquilo que faz.
Compete porque aquele palco dá-lhe vida. Porque existe uma alegria quase inexplicável no autodesafio, na superação, na preparação e na disciplina diária. Existe prazer em evoluir. Em descobrir até onde o corpo e a mente conseguem ir. E isso é poderoso.
Mihaly Csikszentmihalyi, criador do conceito de “flow”, defendia que os seres humanos atingem os estados de maior realização quando estão profundamente envolvidos naquilo que fazem. E é impossível olhar para alguns destes atletas sem reconhecer isso: aquela mistura rara de foco, entrega e alegria genuína, em que durante alguns momentos tudo parece alinhar-se entre mente, corpo e emoção.
Timothy Gallwey, em The Inner Game, dizia que o maior adversário de um atleta raramente está do outro lado da competição. Está dentro da própria cabeça. Na dúvida. No medo. Na pressão interna. Na voz mental que interrompe a fluidez natural da performance.
E quanto mais observo atletas de perto, mais percebo a profundidade disto.
Há uma luta silenciosa que quase ninguém vê.
Este perfil de atleta, quando sobe ao palco, não leva apenas músculos, técnica ou preparação. Leva a vontade de superar o medo de falhar, a capacidade de crescer sem se perder na comparação e a força para seguir em frente apesar da pressão financeira. Leva, sobretudo, uma resiliência silenciosa, a de quem, mesmo cansado, continua todos os dias a escolher manter-se inteiro.
A neurolinguística ajuda-nos a perceber isto. O cérebro adapta-se ao ambiente emocional em que vive. Adapta-se à segurança ou à ameaça.
E nenhum ser humano consegue viver demasiado tempo em hipervigilância sem que isso afecte a forma como pensa, sente e compete.
Quando um atleta vive constantemente preocupado com dinheiro, patrocínios, deslocações, alimentação ou recuperação física, parte da sua energia mental deixa de estar disponível para competir livremente.
O cérebro deixa de funcionar apenas em modo performance e começa a funcionar em modo protecção.
E isso muda tudo. Muda a confiança. Muda a recuperação. Muda o foco. Muda a relação consigo próprio.
Gallwey falava muito sobre a diferença entre o “Self 1” e o “Self 2”. O Self 1 é a voz crítica, ansiosa e controladora. O Self 2 é a inteligência natural do corpo, a parte intuitiva, fluida e treinada que sabe simplesmente fazer.
Os atletas que elevam o desporto não são aqueles que nunca sentem medo. São aqueles que conseguem não deixar que o ruído mental destrua a ligação ao prazer de competir.
Há atletas que desenvolvem uma relação quase íntima com o desconforto. Não porque gostem de sofrer, mas porque percebem que é muitas vezes aí que descobrem quem realmente são.
E isso continua a impressionar-me profundamente.
Mesmo quando o corpo acusa o desgaste, continuam a competir, porque já não se trata apenas de desporto, é propósito, pertença e identidade.
A alegria genuína de competir continua presente. A paixão continua presente. O entusiasmo continua presente. Mesmo quando a vida fora da competição pesa mais do que devia. É isso que os torna diferentes.
Não competem apenas por medalhas. Competem sobretudo porque encontraram superação pessoal naquilo que fazem.
Há uma força psicológica enorme em alguém que continua a acreditar em si próprio quando o contexto raramente facilita.
Comove-me esta capacidade de transformarem dificuldade em propósito sem perder a alegria pelo caminho.
Porque ganhar é extraordinário. Mas continuar a amar aquilo que se faz, mesmo no meio da adversidade, é uma forma ainda maior de força mental.
Já agora, parabéns ao meu marido que, entre alguns dos melhores do mundo, conquistou para Portugal dois segundos lugares no Miami Pro, na categoria Men’s Physique.
Que exemplo de intencionalidade, dedicação, disciplina, elevação e amor.
E que sorte a minha poder partilhar a vida com um homem desta grandeza.