A coragem do gesto possível
Há uma tentação silenciosa que atravessa a vida contemporânea, a de acreditar que só vale a pena agir quando conseguimos resolver tudo. Como se a ação só fosse legítima quando perfeita, completa e irrefutável. É uma tentação sofisticada quase transformada em imperativo moral, mas profundamente paralisante.
Do ponto de vista filosófico, poderíamos dizer que vivemos presos entre duas ilusões, a de controlo e a de totalidade. Queremos que o gesto seja suficiente para redimir a situação inteira. Mas a condição humana, como lembraria Albert Camus, não se organiza assim, há sempre um excesso de mundo sobre a nossa capacidade de resposta. E haverá sempre algo que escapa.
Talvez por isso, em clínica, vejo frequentemente pessoas não bloqueadas pela falta de recursos, mas pela impossibilidade de serem absolutas. Querem dizer a palavra certa, no momento certo, com o efeito certo e, não o conseguindo, escolhem o silêncio. Querem mudar de vida, mas apenas quando tiverem garantias de que não falharão e, enquanto isso, permanecem onde estão. A imperfeição não é apenas desconfortável, torna-se intolerável.
Mas há uma outra via, mais discreta e mais humana.
Recordo um homem que acompanhava a sua mulher numa doença prolongada. Não podia curá-la, retirar-lhe a dor, nem devolver-lhe o futuro que tinham imaginado. Durante meses, tudo o que fazia era sentar-se ao lado dela ao final do dia e ler em voz alta pequenos excertos de livros que ambos tinham comungado. Quando lhe perguntei o que sentia ao fazer aquilo, respondeu-me: “É pouco… mas é o que consigo dar.”
É pouco, mas, no entanto, é tudo.
A psicologia ensina-nos algo que a intuição muitas vezes recusa, que a ação precede o sentido. Não esperamos sentir-nos prontos para agir, é ao agir que, gradualmente, nos tornamos capazes. Como diria Kierkegaard, não é por termos todas as certezas que damos o salto, é ao saltar, mesmo na incerteza, que a vida verdadeiramente começa. Há aqui uma inversão decisiva: não é a clareza que gera o movimento, é o movimento que cria clareza.
O problema é que subestimamos sistematicamente o valor do gesto pequeno, queremos transformar, resolver, fechar. Esquecemo-nos de que a vida, na sua estrutura mais fina e íntima, é processual e não se altera por atos grandiosos isolados, mas por uma sucessão de movimentos incompletos que, acumulados, redesenham o caminho possível.
Há algo de profundamente ético nisto. Emmanuel Levinas falava da responsabilidade pelo outro como algo que nos convoca antes de qualquer cálculo, não porque possamos salvar, mas porque não podemos ignorar. E, muitas vezes, responder não é resolver, é simplesmente não virar o rosto.
No quotidiano, isto assume formas quase invisíveis. A mensagem que finalmente enviamos depois de semanas de adiamento, a presença silenciosa ao lado de alguém em sofrimento. O início imperfeito de um projeto que nunca parecia suficientemente preparado, ou o pedido de desculpa que não repara tudo, mas abre uma fissura no muro.
São gestos mínimos, mas não são neutros pois, na verdade, são aquilo que impede que a vida se feche sobre si mesma. O mais importante não está entre sucesso e fracasso, mas entre movimento e paralisia, ou entre a ilusão de um gesto perfeito e a coragem de um gesto possível.
Porque há momentos em que não podemos mudar o desfecho, aliviar a dor ou reorganizar o mundo. Há momentos em que tudo o que temos é pouco, demasiado pouco para aquilo que gostaríamos de oferecer.
E, ainda assim, é aí que a vida se joga. Fazer o pouco, dar o possível, estar onde se pode. Não resolve tudo, mas, estranhamente, é assim que quase tudo começa.