O papel dos vizinhos numa sociedade cada vez mais fechada... e complicada
Esta semana, por ocasião de umas pequenas obras de reparação, no sítio onde moro, tive que informar os vizinhos e pedir-lhes desculpas antecipadas pelo eventual transtorno que o ruído lhes possa vir a causar. E mais uma vez, recebi do outro lado palavras simpáticas e tranquilizadoras que me deixaram a pensar na importância deles para a nossa estabilidade mental mas também na segurança dos prédios e ruas onde moramos. Toda a minha vida vivi em bairros e dos bairros tenho muita dificuldade em sair. Gosto de saber o nome das pessoas, de as cumprimentar na rua, do sorriso do sr. João do café, de como a Rute do restaurante em frente se tornou quase família ou do Artur do talho que já sabe o que eu gosto. Gosto dessa presença silenciosa mas afável, de um sítio onde deixar as chaves de casa quando vou de viagem para qualquer eventualidade e da paz que me transmitem as famílias que passam por mim todos os dias de manhã quando vou para o trabalho ou ao final do dia quando chego cansado.
Aqueles seres humanos que a vida escolheu colocar a poucos metros da minha porta. Tão perto que conseguem ouvir a minha música, os meus silêncios, as pequenas discussões e a alegria que sai por vezes de forma mais exteriorizada. Durante anos habituámo-nos a ouvir que o mundo moderno nos trouxe independência. Cada um no seu apartamento, no seu ecrã, na sua rotina. Mas a verdade é que, quanto mais o mundo se tornou digital, mais os vizinhos ganharam importância. Porque há coisas que nenhuma aplicação substitui, a sensação de saber que existe alguém do outro lado da parede capaz de tocar à campainha quando vê algo estranho, de recolher uma encomenda, de perguntar “está tudo bem?” quando há demasiado tempo não se abre a janela.
Os bons vizinhos são uma espécie de família improvisada que a vida nos oferece sem pedir autorização. Quando a relação é saudável, criam-se laços silenciosos que dão segurança emocional a qualquer prédio, rua ou bairro.
Num tempo em que o isolamento cresce de forma assustadora, sobretudo entre os mais velhos, os vizinhos tornaram-se uma linha invisível de proteção social. Muitas vezes são eles os primeiros a perceber que algo não está bem. São eles que dão pelo silêncio fora do normal. Que estranham a ausência. Que reparam numa persiana fechada há dias. Mas há também o outro lado. Os maus vizinhos. E poucos desgastes emocionais são tão silenciosamente corrosivos quanto viver ao lado de alguém incapaz de respeitar o espaço comum. O barulho constante, a falta de civismo, os que implicam por tudo e por nada. Um mau vizinho consegue roubar paz a uma casa inteira. Consegue transformar o lar, esse lugar que devia ser refúgio, num espaço de ansiedade.
Talvez porque a proximidade obriga ao exercício mais difícil de todos, o respeito. Respeitar horários, limites, diferenças e formas de viver. Numa época em que todos exigem direitos mas poucos praticam deveres, viver bem entre vizinhos tornou-se quase um ato de maturidade emocional. Antigamente, sobretudo nas vilas e bairros antigos, os vizinhos eram extensão natural da vida familiar. As portas estavam abertas, trocavam-se pratos de comida, conversas e preocupações. Hoje as portas blindadas parecem simbolizar também uma certa blindagem emocional. Protegemo-nos tanto do mundo que, às vezes, acabamos presos dentro dele.
E no entanto, continua a existir algo de profundamente humano em saber o nome de quem vive ao lado. Em cumprimentar. Em perguntar como correu o dia. Em criar aquela sensação rara de pertença que faz um prédio deixar de ser apenas cimento empilhado. No fundo, os vizinhos lembram-me de uma verdade simples, ninguém vive verdadeiramente sozinho. Mesmo quando acha que sim. Porque a vida torna-se sempre mais leve quando existe alguém por perto disposto a olhar por nós. Ainda que apenas do outro lado da parede. Nesse aspeto sou uma pessoa com sorte, tenho vizinhos simpáticos, fáceis de lidar, que não são intrusivos e descomplicam onde outros arranjam confusão. E isso, parecendo que não, faz toda a diferença.
Frases soltas:
Esta semana a Ordem dos Veterinários emitiu uma circular ou comunicado sobre essa crescente “moda” das pessoas que se sentem ou identificam como animais e que são chamados de therians referindo que as clinicas veterinárias não estão aptas para tratar humanos. Muito bem. Só faltou aconselhar esses seres a procurar ajuda psiquiátrica…ou um jardim zoológico para viver.