As mães e o seu papel num mundo cada vez mais complexo
A semana passada devido a compromissos pessoais não me foi possível escrever a crónica que tinha preparada. Vai assim, sabendo de antemão que homenagear as mães, o seu papel na sociedade e a influência que têm no crescimento dos seus filhos é sempre atual, não se deve cingir a um dia mas deve percorrer todos com a mesma força e orgulho. Não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto mas revisito-o num tempo de guerras e conflitos com a consciência de que nos vai faltando essa ponta de humanidade que é a base da cumplicidade que nasce entre os dois. Até porque é curioso como o mundo valoriza tanto os grandes líderes, os empresários visionários ou os génios da inovação, esquecendo-se muitas vezes de que quase todos eles começaram por ter uma mãe que lhes ensinou as primeiras palavras, os primeiros valores e as primeiras noções de coragem. Eu tenho esses ensinamentos sempre presentes em mim, do que tenho vivido com a minha, do que ela tem significado para o meu crescimento emocional mas também de tantas amigas que o são e que vou acompanhando, nos seus sacrifícios, na sua luta permanente para dar e entregar o melhor delas, no amor que parece transbordar, mesmo que colocado permanentemente à prova.
Talvez nunca como hoje o papel das mães tenha sido tão difícil.
Vivemos numa era vertiginosa. Os filhos crescem à velocidade de um algoritmo. O mundo muda mais depressa do que a capacidade de adaptação das famílias. As referências desapareceram, a autoridade transformou-se em negociação permanente e as redes sociais passaram a educar mais horas por dia do que muitos pais conseguem acompanhar. Ser mãe hoje é quase exercer uma profissão de alto risco emocional. As mães modernas têm de ser psicólogas, gestoras de agenda, especialistas em tecnologia, motoristas, nutricionistas, confidentes, mediadoras de conflitos e, ao mesmo tempo, manter uma carreira profissional competitiva. Tudo isto sem falhar, porque a sociedade continua a exigir delas uma perfeição que raramente exige aos homens. Mas o mais extraordinário é que continuam lá.
Continuam a ser aquele abraço depois de um desgosto amoroso. A chamada telefónica quando tudo corre mal. O olhar que percebe imediatamente que o filho diz “está tudo bem” quando afinal não está nada bem. Há uma espécie de radar emocional nas mães que a ciência talvez um dia explique, mas que os filhos reconhecem desde sempre. E eu sempre o senti com a minha. É muito difícil escondermos as emoções, o que sentimos ou o nosso estado de espírito de alguém que nos conhece melhor do que ninguém, mesmo que por vezes o tentemos fazer só para não as preocupar. Para não lhes transmitirmos ainda mais peso, mais sofrimento ou noites mal dormidas.
Num tempo em que tantas relações se tornaram descartáveis, as mães continuam a representar a forma mais pura de permanência. Mesmo zangadas, mesmo cansadas, mesmo magoadas, há sempre algo nelas que permanece. E talvez seja isso que dá estabilidade emocional a tantas pessoas num mundo onde tudo parece provisório. Ainda esta semana me dizia uma amiga, num jantar, que ninguém lhe tinha explicado quão duro era ter um filho. Compreender as noites mal dormidas que ninguém viu. As preocupações escondidas atrás de uma resposta tranquila. As vezes em que adiaram sonhos pessoais para garantir estabilidade aos filhos. As lágrimas silenciosas no quarto quando o medo apertava e não havia manual de instruções para educar alguém num mundo cada vez mais complexo.
Há quem diga que o futuro pertence à tecnologia. Talvez. Mas o futuro continuará sempre a depender da qualidade humana das próximas gerações. E essa construção começa quase sempre no colo de uma mãe. E eu agradeço à minha e a todas as outras que dia após dia, através de pequenos gestos impedem este mundo de perder completamente a alma. Por ainda serem “o” lugar onde se aprende empatia, respeito, tolerância e afeto verdadeiro. E isso, numa época dominada pela superficialidade instantânea e pelas emoções descartáveis, vale mais do que nunca.
No fundo, o mundo evolui, muda, acelera, reinventa-se, mas continua a haver uma constante que atravessa todas as épocas, a capacidade extraordinária das mães para transformar amor em força e presença em proteção.