Tombo revela fé da sociedade madeirense
D. Nuno Brás destaca visão da vida eterna nos séculos XV a XVII
O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, considerou este sábado que o Tombo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Machico (séculos XV–XVII). Estudos históricos e edição anotada constitui “o reflexo da fé da sociedade de então”.
As declarações foram feitas à margem da apresentação da obra, realizada no Fórum Machico, no âmbito do XVIII Colóquio do Mercado Quinhentista.
Segundo o prelado, o documento demonstra como as populações da época viviam com uma forte consciência da vida eterna e da ligação à comunidade cristã.
“As pessoas, antes de morrer, deixavam uma quantia para que fossem celebradas missas pela sua alma. Isso significa este viver sempre na perspectiva da vida eterna”, afirmou.
D. Nuno Brás explicou ainda que o tombo mostra a importância da oração pelos mortos e da permanência dos laços comunitários após a morte.
“As pessoas viviam sabendo que estariam diante de Deus e que havia uma comunidade que ficava e rezava por elas”, disse.
O bispo destacou igualmente o valor histórico da publicação, considerando que o livro permite identificar pessoas, locais e épocas da sociedade machiquense entre os séculos XV e XVII.
“Uma das coisas muito interessantes do livro é o resumo da biografia dos vários oferentes. É importante perceber quem viveu, onde viveu e em que tempo”, sublinhou.
Para o responsável católico, a obra ajuda também a compreender a identidade da Madeira nos primeiros tempos do povoamento.
“Creio que a Madeira foi criada, desde o início, por gente que tinha esta perspectiva de vida eterna”, referiu.
Questionado sobre se essa visão continua presente nos dias de hoje, admitiu mudanças nos hábitos e preocupações da sociedade actual, mas acredita que a fé permanece enraizada na população madeirense.
“O nosso modo de viver é muito virado para o aqui e agora. Pensamos pouco no futuro e pouco na vida eterna. Mas creio que há ainda muito na sociedade madeirense esta perspectiva de fé”, concluiu.