Sem professores que país teremos amanhã?
A urgência do estado da nação: Portugal e a educação, que futuro queremos?
Portugal tem razões legítimas para se orgulhar do percurso que fez na educação ao longo das últimas décadas. Durante o período do Estado Novo, o analfabetismo era uma realidade dominante: atingia cerca de 68% da população no seu início e, mesmo no final desse regime, ainda rondava os 25%. Após o 25 de Abril, o país realizou um esforço notável que permitiu reduzir esse valor para cerca de 3%. Trata-se, sem dúvida, de uma das maiores conquistas da democracia portuguesa. No entanto, seria um erro olhar apenas para esse sucesso e ignorar os problemas que, entretanto, surgiram. Um dos mais preocupantes foi a incapacidade de reter muitos dos jovens qualificados que o próprio país formou. Ao longo dos anos, milhares de quadros médios e superiores emigraram em busca de melhores condições profissionais e salariais. Esta realidade representa uma perda significativa de talento e de investimento público, pois a formação desses profissionais foi financiada pelos contribuintes portugueses.
A situação torna-se ainda mais complexa quando analisamos a evolução demográfica. Portugal enfrenta uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa, o que conduz ao envelhecimento da população e à diminuição da força de trabalho. Para compensar essa escassez, o país recorreu à imigração, fenómeno que pode trazer benefícios económicos e sociais, mas que exige políticas sólidas de integração e planeamento. Sem essas políticas, corremos o risco de agravar tensões sociais e de criar dificuldades adicionais no sistema educativo e no mercado de trabalho. Contudo, é na educação que se encontra hoje um dos sinais mais claros de alerta. Nos próximos anos, prevê-se a necessidade de recrutar dezenas de milhares de professores para substituir os que se reformam. Este desafio poderá revelar-se difícil de superar, não por falta de jovens capazes, mas por falta de atratividade da profissão docente. Salários pouco competitivos, progressão lenta na carreira, excesso de burocracia e crescente complexidade do ambiente escolar têm afastado muitos candidatos do ensino.
A profissão de professor, que deveria ser uma das mais prestigiadas da sociedade, tornou-se, para muitos, uma escolha arriscada e pouco valorizada. Quando um país deixa de atrair talento para a educação, está, na prática, a comprometer o seu próprio futuro.
Por isso, a resposta a estes desafios não pode ser pontual nem improvisada. É necessário um compromisso nacional de longo prazo que coloque a educação no centro das políticas públicas. Isso implica valorizar verdadeiramente os professores, criar condições para que os jovens permaneçam no país e desenvolver estratégias eficazes para apoiar as famílias e integrar novos residentes.
O futuro de Portugal não depende apenas da economia ou da tecnologia. Depende, acima de tudo, das pessoas que formamos, das oportunidades que lhes oferecemos e da importância que damos ao conhecimento.
A educação não é apenas um setor do Estado. É o alicerce da nação.
A.J. Ferreira