Centenas manifestaram-se para exigir melhores salários, democracia e liberdade
Centenas de venezuelanos marcharam hoje em Caracas contra "os salários de fome", um dia depois de a Presidente Interina, Delcy Rodríguez, anunciar o aumento do salário mínimo com subsídios incluídos para 240 dólares (204,57 euros).
Reclamando que o cabaz básico alimentar ronda os 640 dólares (545,16 euros), e gritando as palavras de ordem "melhores salários, democracia e liberdade", os venezuelanos concentram-se em Chacaíto, no leste de Caracas, de onde partiram sob forte custódia policial, até à Praça Morelos (centro).
"O aumento [anunciado] é uma verdadeira farsa, porque não é um aumento. É uma falsidade contra os movimentos operários, contra o país. O salário não foi aumentado, foi maquilhado", explicou Fernando Aranguren à agência Lusa.
Em representação dos Movimentos Sociais do partido Vontade Popular, Fernando Aranguren questionou ainda a fixação das pensões dos reformados em 70 dólares (59,63 euros).
"É rídiculo. Eles para se alimentarem necessitam um mínimo de 640 dólares como qualquer venezuelano", frisou, acusando o regime e o setor empresarial de preferirem manter os trabalhadores passando fome.
Araguren explicou que o cabaz completo, que inclui atenção médica e serviços, ronda os 1.200 dólares (1.022,18 euros) e atribuiu o anúncio do aumento salarial a uma tentativa desesperada do regime de acalmar os trabalhadores, mas com um engano.
"A sociedade não pode continuar a ser enganada. Têm um discurso que fala de democratização, mas as pessoas continuam a ter medo de sair à rua e são reprimidas", disse, denunciando que na quinta-feira o regime reprimiu uma manifestação que se dirigia ao centro de Caracas para exigir melhores salários.
"Podem reprimir-nos hoje e sempre que quiserem, mas não conseguem mudar a vontade do povo, que começa a mudar, a revelar-se e a deixar o medo para trás", frisou.
Com um cartaz na mão a dizer "quero morrer de velhice e não de fome", o bombeiro reformado Víctor Colina queixou-se que desempenhou "uma profissão que noutros países é valorizada, porque os bombeiros cuidam e ajudam as pessoas em momentos de emergência, de desespero e em situações difíceis", mas que na Venezuela "os salários são péssimos".
Denunciou que o governo do Distrito Capital tem uma dívida desde há 18 anos com os bombeiros e definiu o aumento anunciado como "uma traição digna de um Judas", porque "o salário atual não dá nem para comprar pão".
Naucela Gudiño, da Ordem dos Enfermeiros do Distrito Capital, marchou convencida de que "com o aumento anunciado, quem dirige o país continua a violar o artigo 91.º da Constituição, que estabelece que todos os trabalhadores têm direito a um salário suficiente que lhes permita viver com dignidade e cobrir as suas necessidades e da sua família".
"O salário mínimo deve ter como referência o custo do cabaz básico alimentar, aquele que contem apenas alimentos, e que ronda os 677 dólares (576,68 euros)", disse.
Desabafou que Delcy Rodríguez tinha prometido "um aumento responsável", mas que o que anunciou não representa mudança, apenas a soma dos subsídios com mais 50 dólares (42,59 euros).
"Temos que continuar nas ruas para que o Governo dos Estados Unidos veja que estamos descontentes", disse, recordando que, desde a captura de Nicolás Maduro por tropas norte-americanas em 03 de janeiro, Donald Trump dirige uma transição tutelada na Venezuela.
Génesis Freitas, mais conhecida como "a avó resistência", lamentou que, apesar do significado do dia 01 de maio, "já não há marchas multitudinárias para defender os valores e o esforço dos trabalhadores".
"Há que deixar o medo a um lado e exigir respeito pela Constituição", disse.
Sobre a diferença entre o salário e as pensões, questionou se acaso os idosos comem menos que os trabalhadores, vincando que muitos até gastam mais porque necessitam de medicamentos.
A Donald Trump pede que volte a prestar atenção ao que acontece na Venezuela.
A professora Carmen Teresa Marquez, presidente da Federação Venezuelana de Professores, explicou que os venezuelanos vão continuar a lutar até que o salário seja "recomposto".
"Não queremos subsídios nem bónus. Necessitamos recompor o salário, aumentos que se ajustem à realidade", disse.
Frisou ainda que a Venezuela precisa de um Governo que ouça os venezuelanos e negoceie as convenções e contratos coletivos.