Liberdade
Eu não tenho memórias da revolução, mas o 25 de Abril mudou tudo e isso eu vi acontecer, mesmo cá em cima, no Laranjal, numa curva de estrada que, segundo a minha tia Alice, ficava no fim do mundo e era o último lugar onde ligavam a luz depois de um corte geral na rede eléctrica. Por aqui, entre a vinha, os canaviais e os desentendimentos frequentes por causa das horas de água que cabia a cada pedaço de terra, não houve reuniões clandestinas antes ou depois do 25 de Abril. A primeira vez que ouvi a Internacional Socialista foi num tempo de antena do POUS, um partido muito activo naqueles anos e que constava do livro que a minha tia Conceição comprou a ver se entendia melhor o que se estava a passar.
A minha mãe, o meu pai, as minhas tias e o meu tio Humberto estavam a caminho dos 40 anos ou já tinham mais de 40 quando o regime mudou e a única decisão política que tomaram foi de que não iam votar nos comunistas. A campanha na igreja, onde iam todos os domingos, terá contado, mas nada foi mais determinante do que a possibilidade da coletivização os obrigar a partilhar a casa, a fazenda e até as galinhas com outras famílias. As minhas tias e a minha mãe tinham muito orgulho no património e a casa onde nós vivíamos tinha custado muito a construir, obrigara a meter uma letra no banco e estava longe de estar pronta.
A outra preocupação veio das bombas da Frente de Libertação da Madeira que, volta e meia, mandava pelos ares um carro. A minha mãe chegou a pensar que tinha uma no quintal. Foi uma tarde, vínhamos da casa da minha tia Alice e não me deixou subir até descobrir que se tratava de uma toalha esquecida no terreiro. Não sei bem de onde tirou a ideia a não ser do medo, que, às vezes, é irracional. Ou foi do ambiente, daquela convulsão que fez aumentar os preços e obrigou a filas para comprar leite. Até o meu pai ficou desempregado e nunca mais voltou a ter um contrato de trabalho. A revolução fez dele mestre por conta própria até ao dia em que se reformou, quase 30 anos depois.
O meu primo Vítor, que estava a chegar à idade de ir à tropa, livrou-se da guerra do Ultramar e a minha tia Conceição arranjou emprego a arrumar quartos num hotel da cidade e não ficou falada por isso. As mulheres podiam e deviam trabalhar e, por isso, a minha tia Teresa e a minha mãe foram tirar a 4ª classe de adultos no salão paroquial da Visitação. As aulas eram à noite e nunca as vi tão felizes como quando nos iam buscar à casa da minha tia Alice, a única que decidiu que lhe bastava ter só a 3ª classe. Acho que a minha mãe fez as contas à turma toda e copiou o ditado, mas o mais importante foi o diploma. Uns anos antes teria bastado para cumprir o sonho de ser professora, mesmo que fosse só professora regente.
A minha mãe não foi professora, o meu pai só aprendeu a escrever o nome e isso era culpa da ditadura que condenava à miséria e à ignorância. Nunca tiveram dúvidas disso, nem do que iam fazer com a democracia. Se era tarde para eles, não seria para nós, a geração da revolução, educada pelas novas regras. Tivemos médico e botas para corrigir os pés, dentista, escola, fomos aprender a nadar e havia dinheiro para irmos aos passeios da escola, às visitas de estudo e até ao cinema. A minha mãe pagou explicações, levou-nos às vacinas e uma vez a cada período ia falar com o diretor de turma. E, para não nos sentirmos muito diferentes dos outros miúdos da escola, de vez em quando, comprava uns sapatos ou uma roupa nova.
Em casa havia comida da fazenda, os ovos das galinhas e, uma vez por semana, podíamos dividir uma laranjada e comer gelatina e pudim de sobremesa ao domingo. Também tínhamos horários para deitar e levantar e não se podia ficar a ver filmes na televisão nos dias de semana. Dinheiro nunca havia muito e, por esse motivo, os livros passavam do meu irmão para mim. A roupa, as toalhas de praia e os fatos de banho rondavam pela família até se romper. A primeira vez que usei um biquíni novo já estava na faculdade e a toalha durou até começar a trabalhar, mas não se alimentavam ressentimentos. A história do meu pai e da minha mãe não permitia. Difícil era deitar-se sem jantar ou ser a melhor da escola e isso não ter valor por ser menina.
A revolução mudou tudo e os primeiros efeitos aconteceram comigo, com a minha geração, enquanto crescíamos cá em cima no Laranjal ou noutra curva de caminho qualquer, num fim de mundo como aquele, sem grande história, habitado por pessoas como o meu pai, a minha mãe, as minhas tias e os meus vizinhos. A cada 25 de Abril é neles, nos meus pais, que penso, naquelas duas pessoas com quase 40 anos, com dois filhos, pouca instrução e pouco dinheiro e, mesmo assim, cheios de esperança na liberdade e numa coisa que nem sabiam que existia e que se chamava democracia.