O desporto universitário como oportunidade para a comunidade
Falar de desporto, e particularmente do desporto universitário em Portugal, é muitas vezes falar de um potencial ainda por concretizar. Continua a não ser um espaço com o reconhecimento e a projeção que merece, apesar do seu valor formativo e do contributo que pode dar para a vida académica, pessoal e até profissional dos estudantes e de toda a comunidade.
A criação do Clube Desportivo Académica da Madeira, nasce desse contexto. A realidade que enfrentamos é a de um acentuado abandono da prática desportiva à chegada ao ensino superior. O nosso clube nasce com o propósito de contrariar essa tendência, afirmando-se como um motor de promoção e de incentivo para a continuidade da prática desportiva no contexto universitário, sem deixar de integrar também atletas extrauniversitários nesta comunidade, num espírito de partilha e crescimento coletivo.
Tenho o privilégio de acompanhar de perto todo este processo e, se há algo que este percurso demonstrou, é que criar uma equipa está muito longe de ser apenas reunir um grupo de atletas. É construir uma identidade, definir objetivos, criar rotinas e, acima de tudo, estabelecer um compromisso coletivo. Quando este processo acontece envolvendo estudantes-atletas, o desafio torna-se ainda maior.
Ser estudante e atleta em simultâneo, e tendo sido um destes casos, exige muito mais do que mero talento. Exige organização, disciplina e capacidade de sacrifício. Exige saber gerir horários académicos exigentes com treinos regulares, muitas vezes sem o apoio estrutural que facilitaria essa conciliação.
A realidade é que a dificuldade de conciliação não está propriamente na vontade dos jovens atletas, mas nas condições que lhes são dadas. Os horários pouco flexíveis e a falta de reconhecimento institucional são alguns dos obstáculos reais. Ainda assim, são estes mesmos jovens que demonstram, diariamente e semana após semana, que o desporto não prejudica o percurso académico e que, pelo contrário, contribui para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.
O nosso clube insere-se, assim, num contexto particular. Participamos no desporto federado regional, com todas as exigências competitivas e logísticas que isso implica, mas procuramos afirmar-nos também como uma alavanca de promoção do desporto universitário. Não vemos estas duas dimensões do desporto como opostas, mas como complementares. O desporto universitário pode e deve ser uma ponte entre a formação e a competição, e entre a educação e a performance desportiva.
É neste cruzamento que acredito estar uma das maiores oportunidades para o desenvolvimento do desporto na Madeira. Aproveitar o contexto académico para criar estruturas mais inclusivas e mais capazes, dando continuidade à prática desportiva de jovens que, de outra forma, poderiam abandonar, e potenciar um modelo que valorize não só o rendimento, mas também todo o percurso.
Mas a verdade é que construir algo novo implica também enfrentar dúvidas e críticas. Por isso mesmo, importa reforçar um princípio essencial: o respeito por todo o trabalho que é desenvolvido. O futsal, tal como o desporto em geral, precisa de credibilidade, de confiança e de reconhecimento. O nosso clube é ainda jovem, mas tem uma ambição clara. Deseja construir e contribuir para um desporto mais estruturado, mais inclusivo e mais valorizado, não apenas pelos resultados que possam vir a ser alcançados, mas pelo impacto que o desporto tem na formação e na vida das pessoas.