Lula insta Guterres a ser proactivo e avisa que ONU "não pode ficar em silêncio"
O Presidente do Brasil instou ontem o secretário-geral da ONU a convocar reuniões extraordinárias com mais frequência para discutir a situação internacional, defendendo que a organização não "pode ficar em silêncio" perante o que está a acontecer no mundo.
"Precisamos de exigir que o secretário-geral da ONU [António Guterres] convoque reuniões extraordinárias, mesmo sem pedir para os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU. A ONU não pode ficar silenciosa vendo o que está acontecendo no mundo", avisou Lula da Silva no discurso de encerramento do IV Encontro em Defesa da Democracia, em Barcelona.
O Presidente do Brasil afirmou que "Trump invade o Irão e aumenta o feijão no Brasil, aumenta o milho no México, aumenta a gasolina noutros países" e não há "nenhum fórum internacional para discutir" essas questões, deixando duras críticas sobre o atual funcionamento da ONU.
"A ONU, que teve a força para criar o Estado de Israel, não tem força sequer para manter o Estado palestino. Aliás, não tem força sequer para manter as terras demarcadas que foram demarcadas pela própria ONU", criticou.
Lula da Silva considerou que a ONU "hoje não representa aquilo para que foi criada", salientando que, quando foi criado o Conselho de Segurança, o objetivo era "garantir a paz no mundo", mas, entretanto, muitos dos seus cinco membros permanentes "viraram senhores da guerra".
Perante vários líderes de esquerda mundial, como o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, ou os chefes de Estado do México, Alexandra Sheinbaum, ou da Colômbia, Gustavo Petro, Lula da Silva defendeu que "nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países", numa alusão a Donald Trump.
"Nós não podemos levantar todos os dias de manhã e ir dormir todos os dias à noite sempre com um 'tweet' de um Presidente da República com ameaça ao mundo, fazendo guerra, e todos eles tomam decisão sem consultar a ONU, da qual eles são membros e fazem parte do Conselho", acusou.
Lula recordou que, nos conflitos no Irão, Faixa de Gaza ou Ucrânia, os Estados Unidos, Israel e Rússia não pediram a autorização à ONU, alertando que "este extremismo, esta falta de respeito à Carta da ONU, à harmonia entre os países e as nações é muito perigosa no mundo em que estamos a viver".
"Este é o momento da história de maiores conflitos armados do mundo depois da Segunda Guerra Mundial. E o Conselho de Segurança da ONU não se reúne. Os seus membros titulares não comparecem, pedem a representação do embaixador e quando você aprova alguma coisa, têm o direito de veto e não funciona, porque qualquer um [deles] pode vetar", afirmou.
O Presidente do Brasil referiu que já defende há muito tempo que haja mudanças no funcionamento da ONU, para garantir uma maior representatividade de países africanos, asiáticos e da América Latina.
"Cadê a representação africana? Só no continente africano temos três países com mais de 120 milhões de habitantes. Cadê a participação do México, do Brasil, de uma Argentina, da Colômbia? Cadê a representação da Índia? Tantos países importantes... A Alemanha, o Japão, a Indonésia... Todos esses países poderiam participar. Porque não conseguem?", perguntou.
Lula da Silva defendeu que se deve retirar "lição muito séria" do atual contexto internacional.
"A ONU é um instrumento muito valioso se funcionar. E ela precisa funcionar", afirmou.