Tem de ser
A frase “tem de ser” surge no discurso da atualidade entre dois caminhos possíveis, a motivação, a vontade, a disciplina e a obrigação, com cheirinho a sacrifício. Esta ligação pouco clara faz com que muitos acreditem que se sacrificarem a fazer o que não gostam, porque alguém lhes diz que “tem de ser”, por exaustão vão acabar por se motivar. A minha experiência não confirma esta possibilidade.
Tudo o que fica fora da obrigação e pode ser uma escolha tem na base a liberdade de opção, centrada na vontade e nos interesses de cada um. A motivação emerge dos interesses pessoais, lugares de prazer, de crescimento e valorização. Há quem goste de música, leitura, escrita, desporto, teatro, dança e tantas outras atividades que colocam a criatividade, o prazer e o bem estar no centro da sua motivação .
Usando o desporto como exemplo, porque se encontra num lugar de moda, assumindo que é mais saudável do que outras opções, a qualquer pessoa que não se identifica com a prática, é promover zonas de sacrifício. Não tenho dúvidas que o exercício físico é fundamental na saúde física, mas por obrigação, não o é para a saúde mental. A melhor forma de estimular o exercício é integrá-lo nos interesses e estilo de vida de cada um. Desde passear o cão duas a três vezes ao dia, praticar com amigos desportos coletivos com interação e socialização, passear de bicicleta , praticar aulas de dança, yoga, nadar em piscina ou em águas abertas, e tantas outras possibilidades que a vontade e a criatividade de cada um nos possa ajudar a descobrir.
Vivemos um tempo de modas rápidas que tendem a viciar os “seguidores”, na lógica dos “influenciadores” que levam, para proveito próprio, outros a acreditar que as ideias que vendem são as certas, as melhores, as únicas que valem a pena. Vivemos um tempo de negócio de ideias. Vende mais quem convence. Há um jeitinho de manipulação, levar a acreditar no que nem sempre é verdade e não é de todo verdade para todos. Quem vende tem um propósito, quem compra convence-se que aquele é o caminho até porque não quer ficar de fora , quer estar “in”.
Esta tendência é perigosa porque não é verdadeira, impede o desenvolvimento de pensamento próprio, destrói a criatividade e reduz os tempos de lazer a obrigações definidas por, um número de “influencers” que proliferam a um ritmo veloz.
As gerações que estão a crescer nesta tendência vão perder competências fundamentais de vida, vão crescer limitados na sua capacidade de escolha e decisão, com a noção de que estão a fazer certo. Não entendem o que lhes está a acontecer e rejeitam a ideia de que possam estar errados, protegem-se na lógica do “tem que ser”, sem qualquer espírito crítico , nem opção de escolha. O perigo deste modo de agir tem graves consequências na formação da personalidade e nas escolhas de vida social e comunitária. É o lugar do rebanho com pastores muito, muito perigosos.