Libertações na Venezuela resultam de trabalho "discreto, mas muito activo"
Paulo Rangel admite ao DIÁRIO que a transição exige prudência
O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, considera que a libertação dos presos políticos luso-descendentes na Venezuela, alguns dos quais com raízes na Madeira, resulta de trabalho "discreto, mas muito activo e interventivo" do governo português.
"O que eu devo dizer é que até agora já tivemos quatro boas notícias, mas temos nove pessoas em situação que nós podemos qualificar de presos políticos. As situações são todas diferentes e nós temos feito um esforço enorme, sempre muito discreto, mas muito, muito activo para conseguir a libertação de todos. De quatro já se conseguiu e acho que isso são boas notícias", referiu ao DIÁRIO o governante à margem do 35.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, organizado pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que hoje arrancou no Porto.
Paulo Rangel alertou ainda para a especificidade dos presos políticos com raízes em Portugal, que dificulta a intervenção "Há aqui uma dimensão que relativamente a outros países dificulta a nossa acção. É que nós estamos a falar de cidadãos que têm dupla nacionalidade e portanto que o Estado venezuelano encara não como estrangeiros, mas como seus cidadãos nacionais. Isso é sempre um pouco mais difícil. Mas, em todo o caso sinceramente, eu estou muito satisfeito", refere, assinalando que tem contactado todas as famílias dos libertados, tendo recebido gratidão pelo "trabalho muito discreto, mas muito, muito interventivo", que não é de agora e só deste governo, pois "sinceramente os governos anteriores também fizeram muitos esforços, principalmente em relação àqueles que estão presos há mais tempo", já que houve alguns que só foram presos o ano passado, e até dois desses já foram libertados, mas outros estavam há cinco anos presos.
Aliás, as famílias reconhecem esse trabalho, admite. "Até sabem o nome dos funcionários do consulado que os acompanharam, e foram à prisão levar coisas que às vezes não conseguiam. Portanto, são situações realmente muito dramáticas, mas sinceramente eu estou, digamos, com uma expectativa positiva, mas nunca quero falar antes do tempo. Depois de haver libertações, de uma forma ou outra, contactamos as famílias e é realmente também muito reconfortante ver a alegria profunda que essas famílias que passaram tantas dificuldades e às vezes desespero mesmo, sem notícias, etc., a ver como elas estão felizes. Isso é uma coisa positiva, expectativa positiva, mas que exigem sempre muita prudência, muita cautela", refere.
Questionado sobre se a expectativa positiva é generalizada, por exemplo, em relação à actividade económica daqueles que trabalham na Venezuela, Paulo Rangel entende que agora, num país que está num processo de transição muito dinâmico, importa "observar tudo com prudência e com cautela". "A expectativa é positiva, mas sempre com prudência e cautela, que é o que se exige a qualquer diplomata e portanto também àquele que chefia a função diplomática", observa.
Mau grado o optimismo, o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros abordou no Congresso a “Mudança Geopolítica e o valor diplomático do Turismo”. deixando uma mágoa em relação à mediatização tóxica da posição de Portugal sobre a situação na Venezuela. Contudo esclarece que "não foi mágoa nenhuma, mas só pôr os pontos nos is e nada mais". Isto porque os "is têm um ponto e às vezes as pessoas só escrevem o is, e esquecem-se do ponto", esclarece.