Comunidade portuguesa no Brasil pede mais segurança
Líderes da comunidade portuguesa no Brasil ouvidos pela Lusa descrevem a sociedade luso-brasileira como tradicionalmente conservadora e apontam a insegurança como o principal problema que esperam ver resolvido pelo próximo Presidente.
António Almeida Silva, histórico dirigente da comunidade portuguesa de São Paulo e vice-presidente da Casa de Portugal da cidade, associa esse conservadorismo ao percurso dos imigrantes que chegaram ao Brasil e construíram uma vida à custa de trabalho e sacrifício.
"Tudo que foi conseguido pela nossa comunidade foi com muito sacrifício, com muita luta. E eu acho que isso dá essa característica conservadora natural à nossa gente", disse à Lusa.
Tal como milhares de portugueses, chegou de navio ao Brasil com apenas dois anos, acompanhado pelos pais, na década de 1950, em busca de uma vida melhor.
"Quando não é nada fácil, a gente tem um apego maior às nossas coisas", afirmou, ressalvando que essa comunidade "nunca se envolveu de uma maneira muito intensa em qualquer pleito político".
O Brasil decide, no domingo, quem será o próximo Presidente do maior país lusófono e da América Latina, numa luta entre o atual chefe de Estado, Lula da Silva, e o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair.
Também Rose Boaventura, conselheira das Comunidades Portuguesas no Rio de Janeiro, identifica na comunidade uma maior proximidade à direita.
"Creio que a maior parte da comunidade vota na direita", frisou à Lusa.
De acordo com dados da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, compilados pelo Observatório da Emigração, os consulados portugueses no Brasil contabilizavam cerca de 732 mil inscritos em 2024.
"Eu acho que, de um modo geral, reflete muito também a posição da Europa", afirmou, considerando que o continente "está tendendo a voltar para a direita".
Nascida no Brasil, filha de pai natural de Esposende e mãe do Porto, considera, porém, que a comunidade está "bem dividida" perante as eleições presidenciais.
A insegurança é a preocupação transversal na comunidade, com efeitos nos negócios e na própria vida associativa.
"As casas portuguesas já não fazem mais eventos à noite. Isso é decorrente dessa questão da segurança", disse Rose Boaventura.
António Almeida Silva descreveu a segurança como "a maior angústia" dos portugueses e dos brasileiros, sublinhando a exposição de quem trabalha no comércio.
"Nós, lógico que temos comércio aberto, abrimos o comércio de madrugada, é mais intensa essa preocupação ainda", explicou.
A preocupação é partilhada por Teresa Morgado, conselheira das Comunidades Portuguesas em São Paulo e proprietária do restaurante Cais do Porto Taberna, nas instalações da Portuguesa de Desportos, clube fundado em 1920 pela fusão de cinco associações desportivas da comunidade portuguesa.
"A segurança é nosso principal problema aqui em São Paulo", afirmou à Lusa, apontando também o peso dos impostos entre as dificuldades sentidas pela comunidade.
Também António Almeida Silva criticou o peso dos impostos, defendendo um alívio da carga fiscal por parte do próximo Governo.
"O Brasil hoje tem uma carga tributária fora de propósito, que eu espero que na nova administração eles tentem minimizar isso, que é bom para o país, bom para nós, bom para todos", disse.
Sobre o impacto que a vitória de Lula da Silva, ou de Flávio Bolsonaro, terá na comunidade, Rose considera que, "independentemente do resultado, nada muda para a nossa comunidade".
Para as relações entre Portugal e o Brasil idem: "é uma relação histórica que sempre se manteve e, de um modo geral, eu acho que não interessa nenhum dos dois países nenhum tipo de problema nas relações", observou, sublinhando que a relação histórica entre os dois países e a presença das respetivas comunidades favorecem a continuidade dos laços bilaterais.
Já António Almeida Silva pediu um reforço das relações entre Portugal e o Brasil, considerando que ficaram aquém do que a proximidade entre os dois povos exige, tanto durante a presidência de Jair Bolsonaro como na de Lula da Silva.
"Nós não tivemos uma relação com Portugal, Brasil e Portugal, tão intensa como deveria ser, como a amizade dos dois povos exige que seja", afirmou.
O dirigente defendeu ainda menos burocracia no acesso à nacionalidade e no reconhecimento de diplomas.
"Eu acho que isso tem que ser cada vez mais simplificado, cada vez mais natural, sem muita burocracia. A nossa história exige que seja assim", concluiu.