Cancro, sim, mas de chapéu e de preto como se fosse Paris
O meu nome ecoou no corredor e tentei o melhor sorriso, não queria chorar à frente do médico, nem na presença de outro ser humano
Quando me chamaram ao hospital, uma semana depois da biópsia, apresentei-me de preto e de chapéu como se fosse Paris e não se tivesse posto um inverno quente. O médico atendia outros que, como eu, tinham notado caroços e nódulos onde antes não havia e, por isso, sentei-me nas cadeiras do corredor e esperei a minha vez. Havia outras maneiras de encarar o destino e talvez tivesse sido ajuizado ter alguém naquele instante. Em casa, enquanto deitava perfume nos pulsos, pareceu-me melhor enfrentar tudo a frio e sem rede; naquele momento, a escassos minutos de saber o resultado, soou-me a fanfarronice.
O meu nome ecoou no corredor e tentei o melhor sorriso, não queria chorar à frente do médico, nem na presença de outro ser humano. E ainda hoje não sei explicar o que me levou a vestir a melhor roupa e a estar naquele gabinete sozinha, mas foi assim que ouvi o médico confirmar que estava doente e que teria pela frente longos meses de quimioterapia. Foi claro e objetivo, talvez impressionado por uma rapariga de 23 anos que lhe pedia a verdade. As minhas possibilidades eram, naquele instante em que me falava, de 70 por cento, se confiasse no tratamento a vida seria minha.
Eu quis tirar de cima a armadura da força e da coragem, quis recusar tudo o que me dizia. Não podia ser verdade, as pessoas de 23 anos não ficavam doentes e também não morriam. E não queria atravessar aquela paisagem árida em que se ia transformar a minha existência, varrida pela inconstância do tratamento, os vómitos, as dores nas veias e nos braços, o emagrecer até engordar muito e mudar de cor, naquele tom esverdeado das doenças oncológicas. Não chorei, nem ali, nem quando, depois de cortar o cabelo, levava as mãos à procura das madeixas que tinha deixado no cabeleireiro. Todos os dias tentava o meu melhor sorriso, todos os dias vestia as minhas roupas pretas e ia trabalhar.
E todos os dias eu sabia que nada era pleno ou despreocupado. A minha condição estava ali, insinuava-se em quase tudo. Nesse verão não fui à praia, nem fui de férias e até para sonhar era preciso ter cuidado, como se ter esperança pudesse dar azar. E foi como voltar a ter 14 anos e ver a vida acontecer através dos outros. O meu irmão foi de férias aos Açores, uma amiga mudou-se para Macau e outra mandou-me um postal de Roma com elogios aos homens bonitos que tinha visto por lá. Eu não sabia sequer se essa parte de mim estava viva ou se se tinha afundado com as doses de quimioterapia.
As sessões de quimioterapia estavam no centro dos meus dias, havia o antes e o depois, o resto era passado a ler e escrever. Eu escrevia muito, num tom que, a cada dia que passava, se tornava mais triste. O médico dizia-me que estava melhor, os exames e as análise eram promissores, mas a mim doíam-me os braços, estava quase sempre enjoada e, acima de tudo, sentia-me perdida, aquele caminho era mais doloroso do que me tinha parecido. E não tinha contado com quase nada do que me acontecia todos os dias e menos com aquela solidão que me envolvia. A minha mãe, o meu pai, as minhas tias e as minhas amigas estavam lá, sempre, traziam-me morangos fora de época, enviavam encomendas por correio com comida macrobiótica e, mesmo assim, nada era mais desolado, triste e sombrio do que o lugar onde eu estava.
As memórias desses meses são de luta, de um combate entre a minha vontade de fugir, de desistir, de me entregar à doença e o outro lado, o que queria sobreviver, o que pensava no médico e nas promessas de que aquilo era apenas um mau bocado, ia passar até ser só uma lembrança má. E havia ainda aquele resto de orgulho, do desafio ao que aquilo era e que a possibilidade de me extinguir ali mesmo. Acho que foi por isso que me apresentei no hospital com a roupa mais excêntrica que tinha. Se era para ouvir que tinha cancro, então seria de preto e de chapéu como se fosse Paris.