Lee Ranaldo e Leah Singer apresentam 'Contre Jour' na Madeira
Co-fundador dos Sonic Youth e artista visual trazem à Madeira mais de três décadas de criação entre música, imagem e performance
Em 2011, durante uma visita à Madeira, Lee Ranaldo descobriu a obra de Lourdes de Castro. Ao regressar a Nova Iorque e partilhar essa descoberta com Leah Singer, os dois perceberam uma coincidência inesperada: há décadas que trabalhavam, por caminhos diferentes, em torno da silhueta, do contorno e da sombra, sem conhecerem o trabalho da artista madeirense. Dessa descoberta nasceu uma espécie de amizade construída à distância que continua a atravessar o trabalho dos dois artistas.
É neste contexto que Lee Ranaldo, co-fundador da icónica banda Sonic Youth, e a artista visual Leah Singer apresentam ‘Contre Jour’, a 31 de Outubro, às 21 horas, no Auditório do MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira. Desenvolvida desde o início dos 1990, a performance audiovisual cruza imagem, cinema expandido, luz e sombra, construindo em tempo real um espaço onde o corpo, o instrumento e a projecção deixam de ocupar lugares fixos.
Trata-se de uma produção da APCA - Agência de Promoção da Cultura Atlântica, com o apoio da Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura - Direcção Regional da Cultura, através do MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira, e da República Portuguesa - Cultura, Juventude e Desporto/Direcção-Geral das Artes. Os bilhetes estão à venda exclusivamente na Eventbrite, no valor de 15 euros.
Conforme referido, a ligação com Lourdes de Castro começou a ganhar forma em 2011, durante uma visita de Lee Ranaldo à Madeira. Através de João Fernandes, ex-director do Museu de Serralves, Lee Ranaldo conheceu o trabalho da artista, que despertou imediatamente a sua admiração. Levou consigo alguns livros sobre Lourdes e, ao regressar, partilhou essa descoberta com Leah Singer. Foi então que os dois perceberam uma coincidência que os surpreendeu: há décadas que Leah trabalhava com silhueta como motivo artístico e ambos desenvolviam, de formas diferentes, uma investigação em torno do contorno, da sombra e da presença, sem conhecerem o trabalho de Lourdes de Castro.
A descoberta deu origem a uma relação singular, que Leah e Lee descrevem como uma ‘phantom friendship’, uma espécie de amizade construída à distância com uma artista que nunca chegaram verdadeiramente a conhecer. Leah Singer chegou a escrever a Lourdes e a enviar-lhe o seu trabalho. Lee Ranaldo encontrou-a uma única vez. Ainda assim, a ligação permaneceu e foi-se aprofundando através da investigação sobre a sua obra, dos arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, do interesse pela casa e pelo jardim de Lourdes e, mais tarde, do trabalho desenvolvido por Leah Singer para a revista ‘Apartamento’.
“É neste território de afinidade, descoberta e distância que a obra de Lourdes encontra lugar nesta apresentação de ‘Contre Jour’. Não como influência directa, nem como uma referência que os dois artistas procuram reproduzir, mas como a descoberta de uma inquietação artística partilhada em paralelo: a forma como uma sombra pode tornar visível uma presença, como um contorno pode sugerir um corpo e como a ausência pode tornar-se matéria de imagem”, conforme refere a organização do evento cultural.
Em ‘Contre Jour’, “essa relação encontra uma expressão particularmente forte”. “A guitarra eléctrica de Ranaldo, suspensa diante do ecrã, projecta a sua própria sombra, enquanto o corpo do músico e as imagens manipuladas em tempo real por Leah Singer entram num diálogo contínuo. A sombra deixa de ser apenas um efeito de luz e passa a fazer parte da própria matéria da performance”, adianta.
A actual versão de ‘Contre Jour’ incorpora ainda registos de performances anteriores, fazendo com que imagens de outros momentos regressem e passem a integrar a acção presente. Esse processo cria uma espécie de ‘mise en abyme’, ou seja, o trabalho contém vestígios de si próprio e cada apresentação se constrói a partir da relação entre aquilo que já aconteceu e aquilo que está a acontecer diante do público.
“A colaboração entre Singer e Ranaldo começou em 1991, com ‘Drift’, uma performance que combinava música ao vivo com projecção de película de 16mm manipulada em tempo real. Ao longo de mais de três décadas, a dupla desenvolveu uma linguagem que atravessa performance, cinema, instalação, música e artes visuais, questionando as fronteiras convencionais entre quem actua, quem observa e o espaço onde essa relação acontece”, explicam os organizadores.
Em projectos como ‘Sight Unseen’, apresentado pela primeira vez em Toronto em 2010, essa investigação atingiu uma escala monumental, envolvendo som, luz e múltiplas projecções num espaço urbano e atraindo cerca de 15 mil pessoas. Desde então, ambos têm apresentado o seu trabalho internacionalmente, em contextos como o Centre Pompidou, em Paris, Berlin Atonal, Dark Mofo, na Tasmânia, gnration, em Braga, S8 International Film Festival, na Corunha, entre outros.
Em ‘Contre Jour’, som, imagem, corpo e sombra “coexistem num espaço em permanente transformação. Não há uma narrativa linear nem uma separação convencional entre palco e plateia. A performance propõe antes um ambiente para ser habitado durante algum tempo, onde imagens, sons e presenças se sobrepõem e se transformam diante do público”.
A apresentação na Madeira ganha, assim, uma “dimensão particularmente significativa”. É no território onde Lourdes de Castro viveu e trabalhou que “essa história de proximidade à distância encontra um novo momento”.