"A IA não vai dominar o mundo, mas vai dominar as tarefas que ninguém quer fazer"
O robô humanoide Semilha conquistou esta sexta-feira a atenção da plateia da MadIT 2026 – Madeira Innovation Talks – Contadores de Histórias de Inovação – Para Partilhar & Inspirar. Em palco, acompanhou Eliano Marques, CEO e fundador da DataMentors, numa demonstração de capacidades de interação por voz, compreensão de instruções simples e movimentos autónomos, incluindo caminhar e acenar.
"A Inteligência Artificial não vai dominar o mundo, mas vai dominar as tarefas que ninguém quer fazer", afirmou o especialista, defendendo a robótica como uma resposta incontornável à escassez de mão de obra, aos desafios demográficos e às necessidades de setores como a hotelaria, restauração, saúde, indústria e logística.
Criada na Madeira em 2022, a DataMentors está atualmente a implementar soluções de robótica e IA na hotelaria regional. Através da plataforma Ardia, permite integrar e coordenar diferentes tipologias de equipamentos, incluindo robôs humanoides, robôs de serviço e quadrúpedes, com aplicações na restauração, logística, transporte, hospitais e lavandarias.
"Um robô não se programa, ensina-se", sublinhou Eliano Marques, explicando que a adaptação destas máquinas exige aprendizagem e treino ajustados às tarefas, aos espaços e aos processos de cada organização. A integração deve permitir ainda a manutenção e reparação dos equipamentos sem interromper o funcionamento das operações.
O empresário revelou também que a DataMentors está a desenvolver o primeiro robô humanoide desenhado e montado em Portugal, com apresentação prevista para junho de 2027 e ambição de expansão para o mercado norte-americano. A empresa prepara igualmente o reforço da sua capacidade tecnológica na Madeira, aguardando o início de operação, previsto para janeiro, de dois clusters de computação da NVIDIA, no Caniçal.
Sobre o futuro da robótica doméstica, Eliano Marques estima que ainda poderão decorrer cerca de dez anos até à generalização de robôs capazes de executar tarefas em casa. Para acelerar esta evolução, identificou cinco elementos essenciais: dados, capacidade de computação, corpos robóticos, pessoas e clientes que testem as soluções em contexto real.
A demonstração do Semilha, capaz de combinar perceção do ambiente, processamento de instruções e resposta física, ilustrou a evolução da Inteligência Artificial Física, que aproxima a inteligência digital da execução de tarefas no mundo real, respondendo assim ao desafio lançado pela intervenção "Como a Inteligência Artificial e o Semilha vão dominar o mundo".
Segundo nota à imprensa, a conferência MadIT 2026 trouxe, esta sexta-feira, ao Funchal a partilha de percursos, inovação e conhecimento, em áreas tão distintas como a saúde, a astrobiologia, o desporto automóvel, submarinos, Inteligência artificial na previsão de ventos e na robótica, ainda as consequências da algoritmocracia na democracia.
"Quero ser eu a escolher aquilo que vejo"
Os algoritmos que decidem o que vemos nas redes sociais estão a desgastar a democracia, e é preciso regulá-los para devolver às pessoas a liberdade de escolha. Foi esta a mensagem de Adolfo Mesquita Nunes no MadIT – Madeira Innovation Talks 2026, hoje, no Centro de Congressos da Madeira, no Funchal, numa intervenção intitulada 'Algoritmocracia: como a Inteligência Artificial está a transformar as nossas democracias'.
Depois de quase 30 anos de atividade política, como deputado municipal, deputado à Assembleia da República e membro do Governo, deixou a política há cerca de cinco anos. Descreveu um ambiente polarizado, binário e bélico, em que "alguém que gosta de ser moderado e tenta ser sensato tem pouco espaço". Procurou uma explicação para o que estava a acontecer e encontrou-a na tecnologia.
Hoje, a nossa porta de entrada no mundo são as redes sociais. Mas, ao contrário do que acontece com um jornal ou um livro, não sabemos quem escolhe o que vemos. "Se quisermos reclamar, reclamamos a quem?", questionou. Os algoritmos são programados para nos manter agarrados ao ecrã, e o que mais nos prende é o que nos assusta, indigna ou revolta. "A verdade não é tão interessante, não é tão sexy e, portanto, muitas vezes não merece um clique." O resultado são realidades paralelas, em que pessoas que viram o mesmo acontecimento já não se entendem. Adolfo Mesquita Nunes afastou a ideia de uma conspiração das empresas tecnológicas, mas sublinhou que os algoritmos "não têm qualquer compromisso com a verdade", apenas com o objetivo de nos manter ligados.
Foi na parte final que deixou o seu apelo. "Não podemos dizer ao mesmo tempo que a inteligência artificial vai conseguir curar o cancro e depois dizer que não conseguimos regular os algoritmos", afirmou, convidando a plateia a abraçar uma causa: "Precisamos mesmo de recuperar o nosso poder, a nossa liberdade, a nossa iniciativa sobre o nosso processo de formação de opinião."
"Os algoritmos têm de ser regulados", defendeu. Não para fiscalizar conteúdos ou decidir o que é verdadeiro ou falso, esclareceu, mas para dar poder a cada pessoa. "Quero ser eu a escolher aquilo que vejo." Cada um poderia, por exemplo, entregar essa curadoria a um jornal, a uma rádio ou a alguém em quem confia, o que, admitiu, "será o novo modelo de negócio".
A maior preocupação está nas gerações mais novas, educadas por conteúdos curtos e polémicos que simplificam o mundo e tornam tudo binário. Ora, lembrou, a democracia demora tempo, tal como a descoberta da verdade num tribunal. Deixou também um aviso contra entregar a um sistema a decisão sobre o que é verdade ou mentira: "Pode ser muito eficiente, em 99% dos casos, mas nós perdemos a capacidade."
Assumindo-se um grande adepto da inteligência artificial, com a qual trabalha todos os dias, terminou com uma pergunta: que poder queremos entregar? Para Adolfo Mesquita Nunes, algoritmos a decidir aquilo que pensamos e a forma como as nossas crianças são criadas é um poder que não pode ser entregue com tanta facilidade. Por isso, defendeu que a comunidade internacional seja chamada a agir para resgatar aquilo que considera o seu valor principal: "A liberdade".
O MadIT – Madeira Innovation Talks é uma iniciativa da Região Madeira da Ordem dos Engenheiros que junta "contadores de histórias de inovação para partilhar e inspirar". A edição de 2026 dedicou a tarde às 'Histórias com Inteligência Artificial', com Décio Alves, Eliano Marques e o robô Semilha, e Adolfo Mesquita Nunes. O MadIT volta a reunir especialistas no Funchal no próximo ano.
Jovens artistas dão expressão à inovação no MadIT 2026
Cerca de 40 alunos de 12.º ano, da área das Artes da Escola Secundária Francisco Franco, participaram, esta sexta-feira, no MadIT 2026 – Madeira Innovation Talks – Contadores de Histórias de Inovação – Para Partilhar & Inspirar, no Centro de Congressos da Madeira, através de uma iniciativa que permitiu olhar a ciência e a inovação através da do traço e da criatividade.
Orientados pelos docentes Graça Berimbau, Sílvia Pimenta e Nelson Cabral, os estudantes acompanharam as intervenções da conferência e desenharam, em tempo real, as suas interpretações dos temas e assuntos em destaque. Através do traço e de um olhar artístico próprio, transformaram ideias, conceitos e reflexões em registos visuais.
Esta componente artística, que tem vindo a marcar as conferências MadIT, promove uma aproximação dos jovens ao mundo da inovação, do conhecimento e da ciência, através de uma experiência participativa e criativa. Uma forma diferente de acompanhar e interpretar a partilha de experiências, mostrando que a inovação também se constrói com imaginação e novas perspetivas.