Mais de 100 pessoas com deficiência visual identificadas na Madeira
Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal assinou um protocolo de cooperação com a Direcção Regional de Educação que visa, entre outros aspectos, esbater as barreiras comportamentais que afectam a comunidade cega na Região
A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) já identificou mais de uma centena de pessoas cegas ou com baixa visão na Madeira, número que aumentou desde a reactivação do núcleo regional, em 2022, quando a associação dispunha de uma base de dados com cerca de 80 pessoas.
A informação foi avançada esta terça-feira por Ana Andrade, coordenadora operacional do Núcleo da Madeira da ACAPO, à margem da assinatura de um protocolo de colaboração com a Direcção Regional de Educação, que pretende reforçar a inclusão das pessoas com deficiência visual, nomeadamente através de acções de sensibilização nas escolas.
Ana Andrade reconheceu, contudo, que não existem dados rigorosos sobre o número de pessoas cegas ou com baixa visão na Região, uma vez que os Censos não permitem distinguir estas situações de outras dificuldades visuais que podem ser corrigidas com óculos.
Quanto ao protocolo hoje assinado, a responsável salientou que o mesmo permitirá à ACAPO chegar a mais pessoas e colaborar com os serviços da Direcção Regional de Educação na promoção das acessibilidades e na sensibilização da comunidade escolar. Uma das prioridades será ensinar os alunos, desde o ensino primário, a interagir com pessoas cegas ou com baixa visão, procurando combater o desconhecimento que frequentemente constitui uma barreira à inclusão.
Ana Andrade destacou ainda a importância de envolver as crianças neste processo, para que possam transmitir os conhecimentos adquiridos às famílias, notando que as barreiras comportamentais são ainda mais difíceis de ultrapassar do que os obstáculos físicos. "As barreiras que vêm do desconhecimento das pessoas, no geral, são a barreira mais difícil que nós temos de enfrentar", afirmou.
Como exemplos, apontou situações em que pessoas seguram indevidamente na bengala de um cidadão cego, o empurram sem perguntar para onde pretende deslocar-se ou interferem com cães-guia durante o trabalho. A responsável acredita que a sensibilização das crianças poderá contribuir para alterar estes comportamentos, uma vez que os conhecimentos adquiridos nas escolas poderão chegar também às famílias.
A mudança de mentalidades preconizada, no entender da coordenadora operacional do Núcleo da Madeira da ACAPO, poderá ter reflexos futuros no mercado de trabalho, ao contribuir para que os responsáveis pelas empresas reconheçam as capacidades profissionais das pessoas com deficiência.
Por sua vez, o director regional de Educação, João Costa e Silva, sublinhou o contributo da experiência da ACAPO para melhorar as condições de inclusão nas escolas da Madeira e notou que o protocolo hoje assinado pretende reforçar a capacidade de resposta às necessidades dos alunos cegos ou com baixa visão, através de uma maior articulação entre os serviços educativos e a ACAPO. A parceria permitirá, conforme referiu, conjugar conhecimentos e recursos, coordenar intervenções e evitar a duplicação de apoios, assegurando respostas mais ajustadas a cada aluno. Entre as medidas previstas estão acções de sensibilização nas escolas, formação dos profissionais de educação e partilha de conhecimentos técnicos nas áreas da acessibilidade, Braille, orientação e mobilidade e tecnologias de apoio.
João Costa e Silva sublinhou, ainda, que estas intervenções têm consequências práticas na autonomia e na aprendizagem dos alunos, desde o acesso a materiais escritos e recursos digitais até à deslocação entre os diferentes espaços escolares. "Falamos das condições que cada aluno precisa para aprender e participar", afirmou, considerando que a colaboração com a ACAPO deverá traduzir-se em melhores condições de aprendizagem e oportunidades efectivas de participação para os estudantes com deficiência visual na Madeira.
No âmbito da sua actividade na Madeira, a ACAPO disponibiliza actualmente formação em Braille, apoio psicológico a utentes e familiares, aprendizagem da utilização de computadores e telemóveis com leitores de ecrã e acções de sensibilização dirigidas a escolas, entidades públicas e empresas privadas.
Ana Andrade explicou que a aprendizagem do Braille não serve apenas para ler livros, podendo facilitar tarefas quotidianas, como identificar embalagens de medicamentos ou distinguir produtos guardados em casa.
A associação pretende ainda alargar os serviços disponíveis, nomeadamente com a criação de uma equipa que permita assegurar treino de orientação e mobilidade. A responsável sublinhou que a autonomia e a participação social são fundamentais para evitar o isolamento das pessoas com deficiência visual, sobretudo daquelas que perderam a visão ao longo da vida.