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Crónicas

Uma casa difícil de definir

A casa onde cresci não foi sempre do mesmo tamanho e isso definiu tudo no laço que une, o bebé que aqui entrou - nos dois quartos e cozinha, a retrete à parte e os banhos ao sábado à tarde numa tina de metal - e este lugar, esta espécie de irmã com quem dividi a infância e os amuos da adolescência e de onde sai para conhecer o mundo. Quando isso aconteceu eu era uma mulher; a casa este labirinto que saiu da imaginação do meu pai e à qual dedicou tempo e todo o dinheiro que tinha.

Talvez pareça estranho considerar que este conjunto de paredes, janelas, portas, telhado, terraços, degraus e anexos como uma irmã. Não é um ser vivo e, ainda assim, crescemos juntas, eu e a casa, entre sacos de cimento e montes de areia preta, com homens de vários tamanhos e categorias a carregar blocos, a fazer massa ou, então, parados por um instante para beber do garrafão de vinho seco. Pela entrada acima, vi chegar adolescentes acabados de sair da escola e veteranos da guerra colonial, passaram também alguns primos e vizinhos.

Quando fiz a primeira comunhão e a minha mãe convidou o padre para o lanche que deu nesse domingo já tínhamos televisão, um quarto só para mim e uma casa de banho que não envergonhava as visitas. A sala chegou depois, com sofás, logo a seguir a máquina de lavar foi instalada na arrecadação que antes tinha sido o galinheiro, mas o plano não estava completo e, por isso, havia sempre, num canto qualquer, cimento, blocos e areia preta onde, às vezes, se encontravam conchas. Também havia tubos, interruptores, tomadas e, para ficar mais bonito, a minha mãe ia comprar candeeiros, tecido para cortinas e até quadros para enfeitar as paredes.

Eu entrei na adolescência tal e qual como todos os outros, virada ao contrário e dominada por profundos sentimentos de injustiça, a maioria dos quais imputava ao meu pai, à minha mãe e às minhas tias, mas vingava-me nas portas, sobretudo nas do meu quarto, onde me refugiava para chorar a tragédia de ser uma adolescente tão tipicamente desajeitada. As outras miúdas partilhavam ao telefone com os amigos ou dividiam as tristezas com os irmãos, eu tive as paredes e as portas, por ser a mais nova de uma família de mulheres demasiado ocupadas com os seus próprios nervos.

Aos 16 anos, por altura do meu baile de finalista, a casa e eu tínhamos já o tamanho com que iríamos ficar, o que temos agora, mas o material de construção continuava por lá, dentro da loja onde o meu pai passava o tempo livre, quase sempre a magicar formas de ganhar mais dinheiro em projectos condenados como produzir vasos de flores em cimento, cujas metades nunca colavam bem. Foi mais ou menos por essa altura que a minha mãe e eu fomos à cidade comprar um móvel com prateleiras para sala da televisão e umas cadeiras de vime para bordar.

Foi um alívio ter tudo pela primeira vez no sítio onde devia estar, sem o cheiro do cimento, sem um quarto novo inesperado e que, às vezes, não se sabia sequer que uso dar. Se é invulgar sentir por uma casa o mesmo que sente por uma pessoa, também é esquisito morar uma casa assim neste tempo que vivemos, onde tudo se faz com planos, requerimentos, licenças e demais requisitos.

As pessoas vivem em tipologias definidas: quartos, sala, cozinha e casa de banho, armários embutidos, lugar de garagem e uma arrecadação para enfiar a tralha. Eu, pelo contrário, vivo numa casa difícil de definir, onde as ligações eléctricas são mistérios e as paredes nem sempre se alinham e é fácil tropeçar em decisões absurdas. Esta irmã - que é do mesmo pai e da mesma mãe - tem muito de mim.