Foi a maior derrocada eleitoral da história do PSD na Madeira?
Os números destas eleições Presidenciais na Região evidenciam uma forte quebra do partido e apontam para uma alteração significativa no mapa político regional.
A noite eleitoral deste domingo ficou marcada por uma avalanche de reacções nas redes sociais, onde se multiplicaram leituras políticas imediatas aos resultados.
O comentário de um leitor, multiplicado nas redes sociais na noite de ontem, afirmando que “o PPD Madeira perde cerca de 40.000 votos em relação às eleições de 2025 e 60.000 em relação às eleições presidenciais de 2021”, corresponde, no essencial, à realidade dos números.
A reacção surgiu nas redes sociais, em várias notícias publicadas no dnoticias.pt, entre elas ‘Vitória de Ventura na Madeira mostra que “o sistema precisa de um abanão”’ e ‘André Ventura com mais 34.220 votos na Madeira’. Em ambas, o leitor Vítor Manuel Fernandes Nunes escreveu: “Só tenho a salientar é que o PPD Madeira perde cerca de 40.000 votos em relação às eleições de 2025 e 60.000 em relação às eleições presidenciais de 2021.”
Mas será esta afirmação verdadeira?
Fomos verificar os registos eleitorais. Nas Presidenciais de 2021, Marcelo Rebelo de Sousa, candidato apoiado pelo PSD, venceu de forma esmagadora na Região Autónoma da Madeira (RAM), com 77.945 votos, correspondentes a 72,16%. Cinco anos depois, nas Presidenciais de 2026, Luís Marques Mendes, apoiado pelo PSD-M, ficou em terceiro lugar, com apenas 19.960 votos, ou 14,67%. A diferença entre os dois actos eleitorais é de menos 57.985 votos e menos 57,49 pontos percentuais, o que valida a ideia de uma perda próxima dos 60 mil votos.
Também a comparação com as eleições realizadas em 2025 sustenta a ordem de grandeza referida no comentário. Nas Regionais de Março desse ano, o PSD obteve 62.085 votos, o que significa que, face às Presidenciais de 2026, perdeu 42.125 votos. Nas Legislativas Nacionais de Maio, a coligação PSD/CDS-PP alcançou 57.447 votos, registando agora uma quebra de 37.487 votos. Em ambos os casos, a redução aproxima-se ou ultrapassa os 40 mil votos.
Os números evidenciam, assim, um colapso eleitoral sem precedentes do PSD na Madeira em eleições presidenciais. Entre 2021 e 2026, o partido perdeu cerca de 74% do seu eleitorado neste tipo de acto, passando de força absolutamente dominante para uma expressão residual, vencendo apenas numa freguesia em toda a Região. O contraste com os resultados partidários de 2025 é igualmente significativo: o PSD obtivera então 43,43% nas Regionais e 41,35% nas Legislativas, caindo para 14,67% quando o voto foi personalizado no candidato presidencial.
A derrocada do PSD não ocorreu, porém, no vazio político. Foi simétrica ao crescimento explosivo do CHEGA na Madeira.
Em 2021, André Ventura foi o segundo mais votado na Região, com 10.642 votos (9,85%). Cinco anos depois, venceu as Presidenciais de 2026 na RAM com 44.822 votos (33,40%). Trata-se de um aumento de 34.180 votos e de 23,55 pontos percentuais, mais do que quadruplicando a sua base eleitoral num único ciclo presidencial.
Mesmo em comparação com as Legislativas Nacionais de Maio de 2025, já então muito favoráveis ao partido, quando o CHEGA obteve 29.038 votos (20,90%), o crescimento mantém-se expressivo: mais 15.784 votos e mais 12,5 pontos percentuais.
A trajectória é consistente em todo o ciclo eleitoral recente. Nas Regionais de Março de 2025, o CHEGA tinha 7.821 votos (5,47%). Nas Autárquicas de Outubro subiu para 15.725 votos (11,32%). Nas Legislativas de Maio alcançou 29.038 votos (20,90%). Nas Presidenciais de 2026 atinge 44.822 votos (33,40%). A progressão é contínua e acelerada.
Este crescimento traduz-se também territorialmente. Ventura venceu em todas as freguesias dos concelhos da Calheta, Câmara de Lobos, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Santa Cruz, São Vicente e também no Porto Santo, confirmando uma implantação regional transversal e não apenas localizada.
O colapso do PSD e a ascensão do CHEGA surgem no mesmo ciclo eleitoral, revelando uma alteração significativa no equilíbrio político regional. Os dados indicam que, enquanto o PSD perde cerca de 58 mil votos presidenciais entre 2021 e 2026, André Ventura regista um aumento superior a 34 mil votos no mesmo período. Esta evolução sugere uma mudança relevante nas preferências do eleitorado madeirense, que ultrapassa uma simples oscilação conjuntural e aponta para uma reconfiguração do mapa político regional.